sábado, 9 de março de 2013

CALÇA ARRIADA



Enquanto não sai um conto do C.U, topa uma história rapidinha para gente não perder a viagem? 

Isso foi hoje.


Sabe quando você toma um porre e no dia seguinte fica com ressaca de caganeira?

Vai dar descarga no vaso e identifica boiando, pedaço de pizza, maço de cigarro, guardanapo, pena de urubu e uma cabeça de playmobil que você engoliu quando tinha dois anos de idade.

Então... estava assim.

O certo seria eu não sair de casa, mas tinha um aniversário para ir a noite. Então eu tive que ir na rua comprar um presente.

Pálido e um pouco enjoado, comecei a peregrinação de loja em loja atrás de algo legal, porque o aniversariante é maneiro.

- “Já tem nosso cartão, senhor?”
- Oi?
- “Já tem o nosso cartão, senhor?”
- Não, obrigado.
- “Com ele o senhor tem 10% de desconto no ato da compra.”
- Não, obrigado.
- “É rapidinho, só me passar o número da identidade e do CPF.”
- Não, obrigado.
- “O senhor ainda concorre a um vale compra no valor de...

Ah... Cale-se! Cale-se! Cale-se! Você me deixa loooouco!

- “... e uma viagem para Cancun...”
- Querida, eu sei que é o seu trabalho, mas eu não vou fazer o cartão independente do que você diga. Não perca o seu tempo comigo, pode abordar outra pessoa na loja, ok?
- “Ok, mas eu acho que o senhor não entendeu as vantagens do nosso cartão...”

Cara, é mais fácil fazer um Amish comprar um Ipad do que esses vendedores de cartão irem embora.

Tive que usar minha cara de Darth Vader para encerrar o assunto:
- Não, obrigado.

Fiz até a mãozinha de estrangulamento a distância.

- “O senhor que sabe.”

A Mulher saiu inconformada, como se seu fosse um cretino.

Eu sei é que essa lenga, lenga toda me deu vontade de ir no banheiro.

Tenta ir em banheiro de loja. Só consegue se estiver grávida porque vagabundo tem medo de pegar terçol.

Tive que caçar um sanitário porque o peido já chegou molhado.
A cólica veio deixando a coluna igual a do Quasímodo de Notredame.

E a lágrima triste escorria pela bochecha feito a do Burro dos saltimbancos trapalhões.

Achei um banheiro no shopping escondidinho.

Cu tem GPS, já falei. Quando a gente está apertado, quanto mais perto você chega do banheiro, mas vontade dá. Flato!

Adentrei rezando para estar vazio porque a porrada ia ser boa.
Sentei no vaso mais rápido que criança na cadeira quando o animador de festa diminui a música.
 E dali eu não sairia tão cedo.

De repente escuto a porta bater, alguém entrou.

Enquanto mulher vai sempre acompanhada no toilet, faz amizade, troca maquiagem e senha do facebook, homens nem se olham.
E é muito ruim você ficar cagando e gemendo com alguém te escutando.
Demostra fraqueza e vulnerabilidade

E acústica de banheiro é igual de igreja, né.
Qualquer peido é Pavaroti.

Um cara entrou na cabine ao lado. Ia fazer cocô também, supus.
Se tem muito mictório vazio, só mija em vaso quem tem piru pequeno.

Bom, continuei minha mentalização intestinal.

- “Você empesteou o banheiro com cheiro de homem.”

Levantei a sobrancelha feito um suricato e o cocô que estava saindo se escondeu feito barata quando a gente acende a luz.

Ele falou comigo?

- “Que perfume você usa?”

Ele deve estar no telefone, só pode.

- “Hein, rapaz de cabelo estiloso. Estou falando com você.”

Um homem desconhecido, sentado no vaso ao lado e puxando conversa?
O que ele queria? Começar uma guerra?

- “Eu estou te olhando faz tempo. Alguém já te disse que você é muito bonito?”

O cara era gay, claro, mas abordar os outros cagando é sacanagem.

Fiz o qualquer macho faria.
Tossi para mostrar para ele que sou forte e limpei a garganta para revelar meu nível de heterossexualidade.

- “Você não vai falar comigo, não?”

Falei:
- Cara, eu estou passando mal, é uma péssima ideia falar comigo agora.

- “É que eu estava pensando se a gente podia se conhecer melhor, você parece ser tão interessante.”
- Mermão, presta atenção. Eu tenho amigos gays, estou do lado de vocês contra o preconceito, defendo para caralho os gays, mas não curto essa parada. Seja lá o que você está querendo, desiste, pois você está me constrangendo, me atrapalhando e eu vai começar a me irritar.

Falei com a voz do Optius Prime.

- “Calma!”
- Estou calmo, cara. Eu ainda estou calmo.
- “Só me diz se é Malbec.”
- O que?
- “O seu perfume. É o Malbec, da boticário não é?”

Puta que pariu...

Nem respondi.

- “Muito cheiroso... forte... intenso.”

Silêncio.

- “Não fica chateado comigo não! Posso só te perguntar uma coisa?”
- “Posso?”
- “Só uma coisa. Posso?”

Eu estava no meio de uma dor de barriga daquelas. O maluco não ia desistir.

- Fala, cara.
- “Como é que você sabe que não curte se nunca experimentou.”

Olha o papinho...

- Cara...sério, fica na sua, fica.
- “Porque eu já vi muitos homens mudarem de opinião. Homens que você nem imagina.”

Que merda hein...

- “Às vezes só o que falta é oportunidade com a pessoa certa.”

Dei uma engrossada.

- Porra meu amigo, não fode! Sério que esse seu papo furado funciona? Você vai acabar tomando umas porradas qualquer dia desses.

Macho para caralho.

- “Você vai me bater?”

Falou todo malemolente igual o gato da Alice, mermão.

Dei uma testada para ver se já dava para levantar e ir embora, mas sabe quando fica algo pendente na barriga. Ainda ia demorar.

Fiquei quieto novamente.

O cara continuou se arrastando na conversa feito uma jibóia em câmera lenta:

- “Me desculpa te incomodar assim, mas é que eu pirei quando te vi. Achei que pudesse rolar alguma coisa.”

Respirei fundo.

- Tá bom, cara, fico lisonjeado. Mas agora que você sacou que não vai rolar nada, dá para ir embora?
- “Dou.”

É mole?

Bufei.

- “Vamos fazer o seguinte. Vou te dar meu telefone, caso mude de ideia, me liga. Pode ser?”

E passou o papelzinho por debaixo da cabine.

- “Muito prazer, meu nome é Angelo.”

What? Muita coincidência ruim. Meu xará ainda por cima.

- “E o seu?”

Nem falei nada, claro.

- “Tchau estiloso.”

A porta bateu.

Assim que eu acabei, lavei a mão, ajeitei o black e mandei um beijinho para o espelho.

Fim de história.

Pode não ser um final bom para o C.U, mas para o meu foi.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

FIM DO MUNDO




2013.
E do nada, um meteoro atingiu a Terra: BUM!
Aí me surge a porra de um asteroide de 45 metros, 130 mil toneladas passando do nosso ladinho. Ufa..
Os cientistas disseram que não tinha perigo porque não estava em rota de colisão com a Terra.
Mas mermão, quem joga sinuca sabe o poder que uma tabela pode ter.
E além do mais, e se fosse bater? Ainda não vi ninguém de collant azul e capa vermelha, dando pinta voando por aí.
Uma hora vai dar merda.

Enfim, parece que sempre o mundo vai estar prestes a acabar.
Mas na virada de 1999 para 2000 isso quase se tornou uma certeza, lembra?

Não bastasse Nostradamus lançar a o veneno: “De mil passarás, mas dois mil não chegarás!”*  tínhamos também o mito do “Bug do milênio*” que daria uma pane generalizada em todo sistema do planeta. Colapso, fim dos tempos.

E esse Conta Uma data exatamente desse dia...

Pau Barbado era um ser humano delicado e suave.
Tão suave quanto comer um tacacá* no verão de Bangu.

 - “Se o mundo vai acabar mesmo, quero morrer jogando leite em alguém!”
- Nossa! Que poético! Por que você não bate lá na porta da Simone Bução, então?

Simone Bução
Uma vizinha muito maluca e estranha, de cabelo Cocker Spaniel, rosto chupado e olhos desconexos que nunca chegavam num acordo direcional.
Já o corpo era perfeito. Perfeitamente reto, sem nenhum vestígio de curva. Onde deveria existir uma bunda dava para pendurar um espelho.
Os seios, tínhamos que ficar procurando feito o Geninho* do desenho da She-Ra.
As coxas branquelas e finas eram da mesma espessura da batata da perna e os joelhos eram do tamanho exato da sua cabeça.
Tinha dedos longos e muitos pelos no braço.
Mas o que mais me chamava atenção mesmo era um bigodinho que ela ostentava. Parecia que tinha engolido uma andorinha e deixado o rabo para fora da boca, como diria Didi Mocó.
Eu acho que ela raspava aquela merda com gilete. Quando raspava!
Não fosse o suficiente, seu papai era Brabão da Polícia Federal.

Simone Bução dava em cima de todo mundo que tivesse testículos, mas só um contemplado teve a ousadia de se deitar com ela.

- “Vai ficar jogando isso na minha cara para o resto da vida, porra!?”

O fato é que depois que Pau Barbado caiu na cama da Simone Bução, se fudeu.  A mulher ficou totalmente obcecada por ele. No melhor estilo Glen Close em Atração Fatal*. 

Tadinha, ela era gente boa, mas extremamente louca e muito carente.  Para você ter uma ideia, na primeira vez que eles transaram, ela lhe serviu um café da manhã na cama com um anel de compromisso entre o pão e a manteiga, se dizendo completamente apaixonada.
Foram necessários sete babalorixás e um mandato de segurança para ele se livrar dela, quase ileso.

- “Já acabou? Enquanto você fica de blá blá blá, as bolas de fogo estão chegando do céu. Vambora sair logo para rua!”
- Pau Barbado, não tem a mínima chance de eu sair de casa hoje.
- “Para com isso! Vamos lá, porra!”
- E você quer ir para onde?
- “Advinha?! Começa com P e termina com uteiro!”

Pau Barbado era a pessoa mais tarada que eu já conheci na vida.

Tinha tesão na Dercy, na Vovó Mafalda, em mulher amamentando, na princesa do Mário Bros, na Olívia Palito e naquela loirinha, de aparelho, dos Goonies*...resumindo:

Era um doente.

E ficou durante quarenta minutos tentando me tirar de casa feito Lúcifer sussurrando no ouvido de Jesus, passando aquela língua bifurcada de serpente no lóbulo da minha orelha.

Mas eu sou teimoso.

- Na boa, desiste, brother! O mundo pode até não acabar hoje, mas só essa energia que se formou nesse dia, faz a gente refletir e querer ficar perto da família, das pessoas que ama... e além do mais...
- “Eu pago a noitada.”
- ...Me arrumo em dez minutos.

Também sou volúvel.

Prontos para sair, entramos num acordo:
- Cara... sem sacanagem... passar o fim do mundo no puteiro é deprimente.
- “Não acho! Você num queria ficar com a família? Vamos ficar com as “primas”*, mané!”
- Não, não. Vamos num outro lugar que eu sei que está rolando uma parada maneira.

Uma festa temática originalmente chamada: “Fim do Mundo” numa boate na qual eu tinha o status de: Very Important Penetra.

Não tinha grana, mas sempre fui descolado, bem relacionado, charmoso e cara de pau.
Entramos facilmente pela porta da frente, e ainda tomamos tapinhas nas costas dos donos.

O lugar estava abarrotado de mulheres. Parecia liquidação de sapatos.

- “E você querendo ficar em casa, né?!”

Tática:
Por mais nervoso e tímido que você seja, sempre aborde a mulher mais bonita da festa. Isso mostra confiança e chama atenção das outras.
Sempre dava certo.

Cheguei escorregando de Zé Bonitinho na mais esvoaçante:
- Qual é a chance de alguém linda como você querer conversar com um cara como eu?

A mulher sorriu revelando os cisos:

- “Ah... que isso... muito obrigada!”
- Posso te pagar um drink?
- “Não.”

E desviou de mim feito o Neo das balas da Matrix*.

Ok. Nem sempre essa tática dá certo.

Cinco drinks apocalípticos depois e o filho da puta do Pau Barbado já estava sugando a alma de uma mulher pela traquéia.

E eu, o mais perto que cheguei de alguma mulher, foi da Tia do cigarro, do lado de fora da boate.

Não era o meu dia.

Uma hora depois, Pau Barbado passou por mim de mãos dadas, piscando o olho, me dando tchauzinho e amaldiçoou:

- “Vai passar o fim do mundo sozinhooo...”

Fiz sinal feio com o dedo para ele.

Olhei para o relógio: 23:59
Olhei para o céu pela janela. Nada!

Bom, se o mundo vai acabar, eu vou me acabar antes dele.
Pedi mais um whisky duplo. E outro... e outro...

Sempre desconfio que estou bêbado quando me pego conversando com o copo.
E tenho certeza quando o mesmo começa a me responder:

- “Tem dinheiro para pagar essa conta lotada de whisky, Bruce Wayne?”

Puta-que-o-pariu!
O copo sempre tem razão!
Esqueci de pegar uma grana extra com Pau Barbado.

Fui embora da boate, tropeçando, deixando com a moça da comanda todo o meu dinheiro, meu isqueiro Zippo, minha dignidade, duas promissórias e um monte de desculpa.

Do lado de fora, um fenômeno chamava a atenção dos bêbados mais supersticiosos:

- Que porra de nevoeiro sinistro é esse?

Não dava para ver nada e o pouco que se via parecia sonho.

- Está de sacanagem que o mundo vai acabar de verdade?

Me lancei valente e trôpego entre as brumas, com um certo ar timburtiano no rosto, em direção ao ponto de ônibus.

Ninguém do meu lado e nada no bolso.

Quando o busão apareceu me joguei dentro dele, como quem parte em um navio fantasma.

- Me dá uma carona?

Desci no centro da cidade, em meio às putas e travestis.
Como não estava em condições de diferenciar um ser do outro, achei melhor trocar um perigoso boquete por um perigoso X-tudo.

Com a fome de doze Átilas, aterrissei na carrocinha de insalubridade comprovada e me atraquei ao sanduba feito pivete em carteira de gringo.

Só quem já provou um X-Tudo em fim de noite, com catchup violeta, mostarda laranja e maionese vietnamita, sabe o que estou falando.
A gente chega a lamber o saco em busca da última batata palha e fica muito feliz quando acha um ovo de codorna. 

No mesmo momento desesperador que lembrei não ter dinheiro, achei uma nota amassada para pagar.

Usando meus soluços como muletas, parti ziguezagueando em direção à minha casa.

O trajeto meu corpo já sabia decor.

Tanto que poderia até andar dormindo que chegaria no meu destino.

Andar dormindo.... andar dormindo... andar dor...zzzzzzz

Acordei com a gritaria de um mendigo, raivoso como o próprio Barba Negra, me ameaçando com uma foice imaginária.

Pelo seus resmungos, percebi que tinha tropeçado nele e me encolhido entre suas cobertas cinzas e sujas.
Feito um coala contrabandeado.

Pulei de susto, pedi desculpas e vi que estava exatamente na esquina do meu prédio.

Um cachorro que mijava na pilastra, riu.

O porteiro me deu bom dia com simpatia, mas reparei pela quina dos olhos que ele se benzeu.

Olhei para ele em tom aterrorizante e voz abatedoura:
- O mundo vai acabar hoje Ernesto! Vai acabar!

E entrei gargalhando no elevador tendo que fechar um olho para enxergar os botões do painel.

Onze andares. E sabe-se lá o porquê cargas d´águas, apertei o único botão que não deveria.

A pessoa abriu a porta descabelada e assustada:

- “O que houve Angelo?”
- O mundo vai acabar e eu quero você!
- “Seu doido, entra aí!”

A porta fechou em minhas costas rangendo para mim em tom de desaprovação.

Desabei nos lençóis entregando-me ao meu carrasco de bigode e tetas murchas.

Fim.

Acordei com o tilintar das xícaras do café da manhã ecoando na minha cabeça feito dois rinocerontes de vidro dançando lambada.

Não tive coragem de abrir os olhos.

De repente, umas garras pontiagudas fizeram carinho em minhas costas descendo ao meu cóccix, arrepiando até o último pêlo da prega rainha.

Nessa hora, fiz o que qualquer cristão faria. Rezei:

- Que seja o Capeta! Que seja o Capeta! Tem que ser o Capeta!
- “Bom dia flor do dia.”

Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm....

- Ai não.

Simone Bução com um sorrisinho maroto de Tony Blair passava sapecamente a língua pelos dentes.

- “Melhorou?”
- Não sei exatamente... o mundo acabou?
- “Não mesmo.”
- Então estou muito mal.

Perto do ovo mexido, dois anéis de metal.

NOTA: Onde tiver asterisco, leia-se: Procure no Google.

O Conta Uma não é o Guanabara, 
mas também faz aniversário, tá?!
Dia 28/02/2013 faremos um ano de sucesso!
Rápido, né?
Gostaria de agradecer ao fãs e aos amigos 
pelo apoio, cobrança, correções e elogios. 
Esse ano ainda tem muita coisa boa surgindo. 
Continuem postando muito em suas 
páginas das redes sociais 
e espalhando o C.U no boca a boca.
Quer dizer...bom, vocês entenderam.

Porque a vida é muito mais inverossímil que a ficção
Ou não?
Beijoca!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

MÃOS À OBRA



Olá leitores. Saudade?

Eu disse que estava de férias, mas era mentira. 

Como muito de vocês que me acompanham no facebook sabe, estava mesmo era tocando uma obra gigantesca aqui na empresa.
Desde o natal e ainda não acabou. 

Por isso a falta de tempo para escrever novos contos. 

Obra em casa antiga, sabe como é, né?
É feito espinha no nariz. Quanto mais você mexe, maior vai ficando.

E pior que eu, trabalhando de arquiteto, só o Picaxu de salva vidas.

- “Patrão! O sistema ribunocleico de próclise e mesóclise da intrísseca prosopéica remêneutica está completamente enferrujado, como o senhor pode ver.
- “O Hamálico Prefúsico vai ter que mudar também. Olha aí!”
- “Essa peça nova não coube. Tem que achar outra parecida.”

Trocar algum produto em lojas grandes de material de construção é mais complexo e burocrático que papelaria.

- “O senhor vai ali, pega lá, chupa aqui, toma cá e depois volta para pegar o cupom que o senhor terá que retirar lá embaixo na seção de retirada de troca de produto.”
- Olha, mas eu estou sem a nota fiscal.
- “Sem nota é impossível.”
- Posso falar com o gerente?
- “Pode! Mais já adianto que será em vão.”
- Obrigado, espero que o seu dia seja ótimo também.

A gerente era uma mulher baixinha de pele morena e cara redonda feito um Trakinas. O uniforme não salientava as curvas do seu corpo.  Não que eu quisesse contemplá-las..

- Bom dia meu amor! Eu preciso muito da sua ajuda...

Quando a gerente Trakinas levantou a cabeça para mim... seus olhos se encheram de luz como se visse o próprio Jesus Cristo.

- “Thalles Robertooooooooooooooooooooooo!”

Quem?

- “Thalles Roberto! Eu Adoro você! Sou muito sua fã!”
- Hehe... olha, com certeza você...
- “Minha mãe te amaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!”
- Hehe... muito legal... Mas é que...
- “Só um minutinho que tem uma colega que vai pirar em ver você aqui. Sarahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh”

Fudeu.
Estava com uma ressaca shrekiana.
Com os óculos escuros parafusado na cara.
No começo achei que ela estava me confundindo com algum pagodeiro ou sertanejo, mas aí ela começou a falar muito de Deus então percebi que devo ser parecido com algum cantor evangélico.
Era só o que me faltava.

A outra vendedora era mais histérica. Veio pulando de longe feito micareteira quando encontra a amiga num bloco de carnaval.

- “Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!”

Acreditem... sou tímido.
Ela veio pegando demais para uma serva do senhor.

- Hehehe...Tudo bom?

Confesso que dei uma ensaboada na garganta no melhor estilo Bond Boca.

- “Que voz maravilhosa abençoada por Jesus! ”

Sem querer ser metido, mas...
A minha voz é charmosa, profunda, aconchegante e divina mesmo.

Com a cara de Angelim que Deus me deu, autografei no bloco de pedidos dela. Sem ter ideia de como se escrevia o nome do cara, fiz um desenho abstrato e ainda botei no final aqueles três pontinhos da maçonaria.
Só sei que não enfrentei fila e ainda troquei o produto sem nota e sem nenhum problema.

Os evangélico é tudo unido!

- “Só preciso do seu CPF Thalles.”
- Não conheço nem o cara, quanto mais o CPF dele. Dei o meu.
- Ué? Está constando em nosso sistema como Angelo Morse.
- Han? É, né... Você sabe guardar segredo?
- “O que foi?”
- Esse é o meu nome verdadeiro.
- “Jura? E de onde vem o Thalles Roberto?”

Mandei de trivela com os olhos fechados e sem pudor:
- É que... eu sou fã do Thales Pan Chacon e do Roberto Carlos.

Ela deu uma arqueada na sobrancelha, sorriu, mas sacou o caô.

Levei um tempo sem voltar lá e comprei o resto do material em outra loja, que de tão famosa tem nome e sobrenome.
Inclusive foi nessa que eu comprei toda a cerâmica das paredes das salas, num precinho muito, mas muito em conta, por sinal.
Sem querer dar mole para equação de pedreiro, malandramente, trouxe cinco metros a mais, para quando chegasse no final, não ter que escutar...

- “Aí patrão! Vamu precisar de mais duas caixas dessa cerâmica.”

Puta que pariu! Praga dos arquitetos, que segundo eles, são mediúnicos e matemáticos exatos.

Volta o cornélico para loja de material de construção.
Na verdade fui tantas vezes nessa loja que já tinha lugar cativo na mesa do café da manhã com os funcionários.

- Oi minha querida, tudo bom? Preciso de mais duas caixas daquela cerâmica que levei na sexta feira. Lembra?
- “Lembro. Aquela azulzinha cheio de quadradinho?

Vendedora negra, simpática, gordinha e bonitinha. Daquelas que quando ri, surgem duas covinhas na bochecha que dá vontade de apertar.

- Essa mesmo.
- “Acabou”
- What?
- “Você levou todas as últimas caixas.”

A sensação de um pepino adentrando o ânus.

- Mas por que diabos você não me avisou?
- “Você não perguntou.”

Senti com a língua que os meus caninos estavam maiores e pontiagudos.
A vontade inicial foi morder a cabeça dela como se fosse uma Tortuguita.

Mentaliza o azul... mentaliza o azul...

- Tem certeza que não tem no estoque?
- “Tenho. Esse modelo saiu de linha porque a fábrica lançou uma versão parecida.”

A porra da cerâmica era 31 x 31, a nova 31.5 x 57.
Fabricada especificamente para currar com a minha vida.

Tal qual o Pensador, sentei no vaso sanitário do mostruário e desabei em desalento, desespero, dor e drama.
O black power murchou feito samambaia chorona na seca.

Tortuguita viu minha depressão e ficou com pena:
- “Mas olha só... Constam dez caixas no estoque da outra loja.”

Brilho nos meus olhos.

- Onde? Onde? Onde? Onde?
- “Na loja da BARRA DA TIJUCA”

Nocaute.
Barra é foda! Não gosto de ir lá! Acho tudo muito exagerado e distante. Fora o engarrafamento jabutinesco que iria pegar.

- “Mas é bom ligar para confirmar.”
- Você pode ligar para mim?
- “Infelizmente não estou autorizada.”

56 minutos ouvindo a maravilhosa música da loja que merecia ganhar um prêmio de pior música de espera de todos os tempos.

Já no meio do caminho consegui falar com a vendedora do setor.

- “Realmente constam dez caixas desse produto.”
- Guarda para mim que estou chegando aí, por favor.

Essa vendedora era uma loirona muito maquiada e cabeluda com tração nas quatro rodas.  Parecia uma Elke Maravilha com injeção eletrônica. O crachá parecia um boche entre os seios.
Não que eu tenha reparado.

- Ufa! Tudo bom? Puxa! Que martírio para achar essa cerâmica.
- “Imagino. Deixa eu ir no estoque só conferir o seu pedido.
-  Obrigado, eu só quero duas... Três... Melhor quatro caixas.

Meia hora depois, volta a Elke Poposuda com cara de pataquara:
- “É...Seu Angelo... na verdade... houve um erro no sistema.
- “Ah não... Quantas têm?”
- “Nenhuma. A informação é que saiu de linha para sempre.”

Já viu mamãe porco espinho tendo parto normal?
Fechei os olhos e fiquei amarelo feito Bruce Lee com caganeira.
Encolhi-me no piso frio da loja e fui morrendo aos poucos.
Feito um Tamagoshi solitário e carente.

- “Sabe o que é curioso? Aqui no meu sistema está constando quatro caixas em nossa loja de Bangu.”

Sabe o que é curioso? O tecido dos lábios e do clitóris é o mesmo que o da glande peniana?

- Oi?
- Oi
- Bangu?
- É, parece que tem em nossa loja de Bangu.

Bangu é sacanagem.

- “Mas é melhor ligar para confirmar.”

Jura infeliz?

Você poderia ligar para mim, por favor?
- “Infelizmente não.”

Olhei dentro da alma da mulher com as pupilas negras e dilatadas:
 - Fiquei uma hora ouvindo a porra da musiquinha de vocês em versão sertanejo, olha a minha cara de quem quer ouvir a versão funk.
- “O senhor pode passar um e-mail. Eles respondem mais rápido.”
- Você pode passar para mim?
- “Infelizmente não”

Espero que no carnaval você engravide de um mendigo vestido de pierrô.

- “Oi?”
- Vou lá pessoalmente então. Boa semana para você.
- “Desculpa não poder ajudar”

Morra!

Antes de entrar no carro, enviei a porra do e-mail para loja, mas nada de resposta, claro.

Bangu é mais longe que prisão perpétua
Após duzentas horas, cheguei virado nos sete cangaceiros.

A gerente do setor era uma anã grande de bigode oxigenado.
Parecia o Eufrazino da turma do Pernalonga.

- “Veio de tão longe por que?”

Mentaliza o azul...mentaliza o azul...

- “Era mais perto ter ido na loja de Niterói.”

Men-ta-li-za-o a-zul...

- “Ou na loja da Barra.”

O azul, azul, azul, azul...

- Moça bonita. Já fui a todas. Só preciso que você confirme para mim se realmente existem as quatro caixas no seu estoque, por gentileza.

- “Tem sim.”
Comprei as últimas caixas pelo dobro do preço.

Voltei para casa, com a missão acrobática de não quebrar tudo andando por aquelas ruas que mais parecem uma caixa de ovo.

Chegando em casa, recebo um e-mail:

- “Sr Angelo Morse. Esse produto saiu de circulação. Mas ainda consta em nossas lojas da Barra da Tijuca e de Goiânia.
Obrigado pela preferência.

Você responderia o que?

As duas melhores respostas concorrem a camisa do Conta Uma que será lançada em Fevereiro.

Não se esqueçam de divulgar nas redes sociais que o C.U voltou.
Aguardem as novas histórias bem mais divertidas. 
Mãos à obra e que venha 2013
Obrigado pela preferência.
Abraço.

E para finalizar, um agradecimento especial ao cantor Thalles Roberto.