terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

FIM DO MUNDO




2013.
E do nada, um meteoro atingiu a Terra: BUM!
Aí me surge a porra de um asteroide de 45 metros, 130 mil toneladas passando do nosso ladinho. Ufa..
Os cientistas disseram que não tinha perigo porque não estava em rota de colisão com a Terra.
Mas mermão, quem joga sinuca sabe o poder que uma tabela pode ter.
E além do mais, e se fosse bater? Ainda não vi ninguém de collant azul e capa vermelha, dando pinta voando por aí.
Uma hora vai dar merda.

Enfim, parece que sempre o mundo vai estar prestes a acabar.
Mas na virada de 1999 para 2000 isso quase se tornou uma certeza, lembra?

Não bastasse Nostradamus lançar a o veneno: “De mil passarás, mas dois mil não chegarás!”*  tínhamos também o mito do “Bug do milênio*” que daria uma pane generalizada em todo sistema do planeta. Colapso, fim dos tempos.

E esse Conta Uma data exatamente desse dia...

Pau Barbado era um ser humano delicado e suave.
Tão suave quanto comer um tacacá* no verão de Bangu.

 - “Se o mundo vai acabar mesmo, quero morrer jogando leite em alguém!”
- Nossa! Que poético! Por que você não bate lá na porta da Simone Bução, então?

Simone Bução
Uma vizinha muito maluca e estranha, de cabelo Cocker Spaniel, rosto chupado e olhos desconexos que nunca chegavam num acordo direcional.
Já o corpo era perfeito. Perfeitamente reto, sem nenhum vestígio de curva. Onde deveria existir uma bunda dava para pendurar um espelho.
Os seios, tínhamos que ficar procurando feito o Geninho* do desenho da She-Ra.
As coxas branquelas e finas eram da mesma espessura da batata da perna e os joelhos eram do tamanho exato da sua cabeça.
Tinha dedos longos e muitos pelos no braço.
Mas o que mais me chamava atenção mesmo era um bigodinho que ela ostentava. Parecia que tinha engolido uma andorinha e deixado o rabo para fora da boca, como diria Didi Mocó.
Eu acho que ela raspava aquela merda com gilete. Quando raspava!
Não fosse o suficiente, seu papai era Brabão da Polícia Federal.

Simone Bução dava em cima de todo mundo que tivesse testículos, mas só um contemplado teve a ousadia de se deitar com ela.

- “Vai ficar jogando isso na minha cara para o resto da vida, porra!?”

O fato é que depois que Pau Barbado caiu na cama da Simone Bução, se fudeu.  A mulher ficou totalmente obcecada por ele. No melhor estilo Glen Close em Atração Fatal*. 

Tadinha, ela era gente boa, mas extremamente louca e muito carente.  Para você ter uma ideia, na primeira vez que eles transaram, ela lhe serviu um café da manhã na cama com um anel de compromisso entre o pão e a manteiga, se dizendo completamente apaixonada.
Foram necessários sete babalorixás e um mandato de segurança para ele se livrar dela, quase ileso.

- “Já acabou? Enquanto você fica de blá blá blá, as bolas de fogo estão chegando do céu. Vambora sair logo para rua!”
- Pau Barbado, não tem a mínima chance de eu sair de casa hoje.
- “Para com isso! Vamos lá, porra!”
- E você quer ir para onde?
- “Advinha?! Começa com P e termina com uteiro!”

Pau Barbado era a pessoa mais tarada que eu já conheci na vida.

Tinha tesão na Dercy, na Vovó Mafalda, em mulher amamentando, na princesa do Mário Bros, na Olívia Palito e naquela loirinha, de aparelho, dos Goonies*...resumindo:

Era um doente.

E ficou durante quarenta minutos tentando me tirar de casa feito Lúcifer sussurrando no ouvido de Jesus, passando aquela língua bifurcada de serpente no lóbulo da minha orelha.

Mas eu sou teimoso.

- Na boa, desiste, brother! O mundo pode até não acabar hoje, mas só essa energia que se formou nesse dia, faz a gente refletir e querer ficar perto da família, das pessoas que ama... e além do mais...
- “Eu pago a noitada.”
- ...Me arrumo em dez minutos.

Também sou volúvel.

Prontos para sair, entramos num acordo:
- Cara... sem sacanagem... passar o fim do mundo no puteiro é deprimente.
- “Não acho! Você num queria ficar com a família? Vamos ficar com as “primas”*, mané!”
- Não, não. Vamos num outro lugar que eu sei que está rolando uma parada maneira.

Uma festa temática originalmente chamada: “Fim do Mundo” numa boate na qual eu tinha o status de: Very Important Penetra.

Não tinha grana, mas sempre fui descolado, bem relacionado, charmoso e cara de pau.
Entramos facilmente pela porta da frente, e ainda tomamos tapinhas nas costas dos donos.

O lugar estava abarrotado de mulheres. Parecia liquidação de sapatos.

- “E você querendo ficar em casa, né?!”

Tática:
Por mais nervoso e tímido que você seja, sempre aborde a mulher mais bonita da festa. Isso mostra confiança e chama atenção das outras.
Sempre dava certo.

Cheguei escorregando de Zé Bonitinho na mais esvoaçante:
- Qual é a chance de alguém linda como você querer conversar com um cara como eu?

A mulher sorriu revelando os cisos:

- “Ah... que isso... muito obrigada!”
- Posso te pagar um drink?
- “Não.”

E desviou de mim feito o Neo das balas da Matrix*.

Ok. Nem sempre essa tática dá certo.

Cinco drinks apocalípticos depois e o filho da puta do Pau Barbado já estava sugando a alma de uma mulher pela traquéia.

E eu, o mais perto que cheguei de alguma mulher, foi da Tia do cigarro, do lado de fora da boate.

Não era o meu dia.

Uma hora depois, Pau Barbado passou por mim de mãos dadas, piscando o olho, me dando tchauzinho e amaldiçoou:

- “Vai passar o fim do mundo sozinhooo...”

Fiz sinal feio com o dedo para ele.

Olhei para o relógio: 23:59
Olhei para o céu pela janela. Nada!

Bom, se o mundo vai acabar, eu vou me acabar antes dele.
Pedi mais um whisky duplo. E outro... e outro...

Sempre desconfio que estou bêbado quando me pego conversando com o copo.
E tenho certeza quando o mesmo começa a me responder:

- “Tem dinheiro para pagar essa conta lotada de whisky, Bruce Wayne?”

Puta-que-o-pariu!
O copo sempre tem razão!
Esqueci de pegar uma grana extra com Pau Barbado.

Fui embora da boate, tropeçando, deixando com a moça da comanda todo o meu dinheiro, meu isqueiro Zippo, minha dignidade, duas promissórias e um monte de desculpa.

Do lado de fora, um fenômeno chamava a atenção dos bêbados mais supersticiosos:

- Que porra de nevoeiro sinistro é esse?

Não dava para ver nada e o pouco que se via parecia sonho.

- Está de sacanagem que o mundo vai acabar de verdade?

Me lancei valente e trôpego entre as brumas, com um certo ar timburtiano no rosto, em direção ao ponto de ônibus.

Ninguém do meu lado e nada no bolso.

Quando o busão apareceu me joguei dentro dele, como quem parte em um navio fantasma.

- Me dá uma carona?

Desci no centro da cidade, em meio às putas e travestis.
Como não estava em condições de diferenciar um ser do outro, achei melhor trocar um perigoso boquete por um perigoso X-tudo.

Com a fome de doze Átilas, aterrissei na carrocinha de insalubridade comprovada e me atraquei ao sanduba feito pivete em carteira de gringo.

Só quem já provou um X-Tudo em fim de noite, com catchup violeta, mostarda laranja e maionese vietnamita, sabe o que estou falando.
A gente chega a lamber o saco em busca da última batata palha e fica muito feliz quando acha um ovo de codorna. 

No mesmo momento desesperador que lembrei não ter dinheiro, achei uma nota amassada para pagar.

Usando meus soluços como muletas, parti ziguezagueando em direção à minha casa.

O trajeto meu corpo já sabia decor.

Tanto que poderia até andar dormindo que chegaria no meu destino.

Andar dormindo.... andar dormindo... andar dor...zzzzzzz

Acordei com a gritaria de um mendigo, raivoso como o próprio Barba Negra, me ameaçando com uma foice imaginária.

Pelo seus resmungos, percebi que tinha tropeçado nele e me encolhido entre suas cobertas cinzas e sujas.
Feito um coala contrabandeado.

Pulei de susto, pedi desculpas e vi que estava exatamente na esquina do meu prédio.

Um cachorro que mijava na pilastra, riu.

O porteiro me deu bom dia com simpatia, mas reparei pela quina dos olhos que ele se benzeu.

Olhei para ele em tom aterrorizante e voz abatedoura:
- O mundo vai acabar hoje Ernesto! Vai acabar!

E entrei gargalhando no elevador tendo que fechar um olho para enxergar os botões do painel.

Onze andares. E sabe-se lá o porquê cargas d´águas, apertei o único botão que não deveria.

A pessoa abriu a porta descabelada e assustada:

- “O que houve Angelo?”
- O mundo vai acabar e eu quero você!
- “Seu doido, entra aí!”

A porta fechou em minhas costas rangendo para mim em tom de desaprovação.

Desabei nos lençóis entregando-me ao meu carrasco de bigode e tetas murchas.

Fim.

Acordei com o tilintar das xícaras do café da manhã ecoando na minha cabeça feito dois rinocerontes de vidro dançando lambada.

Não tive coragem de abrir os olhos.

De repente, umas garras pontiagudas fizeram carinho em minhas costas descendo ao meu cóccix, arrepiando até o último pêlo da prega rainha.

Nessa hora, fiz o que qualquer cristão faria. Rezei:

- Que seja o Capeta! Que seja o Capeta! Tem que ser o Capeta!
- “Bom dia flor do dia.”

Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm....

- Ai não.

Simone Bução com um sorrisinho maroto de Tony Blair passava sapecamente a língua pelos dentes.

- “Melhorou?”
- Não sei exatamente... o mundo acabou?
- “Não mesmo.”
- Então estou muito mal.

Perto do ovo mexido, dois anéis de metal.

NOTA: Onde tiver asterisco, leia-se: Procure no Google.

O Conta Uma não é o Guanabara, 
mas também faz aniversário, tá?!
Dia 28/02/2013 faremos um ano de sucesso!
Rápido, né?
Gostaria de agradecer ao fãs e aos amigos 
pelo apoio, cobrança, correções e elogios. 
Esse ano ainda tem muita coisa boa surgindo. 
Continuem postando muito em suas 
páginas das redes sociais 
e espalhando o C.U no boca a boca.
Quer dizer...bom, vocês entenderam.

Porque a vida é muito mais inverossímil que a ficção
Ou não?
Beijoca!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

MÃOS À OBRA



Olá leitores. Saudade?

Eu disse que estava de férias, mas era mentira. 

Como muito de vocês que me acompanham no facebook sabe, estava mesmo era tocando uma obra gigantesca aqui na empresa.
Desde o natal e ainda não acabou. 

Por isso a falta de tempo para escrever novos contos. 

Obra em casa antiga, sabe como é, né?
É feito espinha no nariz. Quanto mais você mexe, maior vai ficando.

E pior que eu, trabalhando de arquiteto, só o Picaxu de salva vidas.

- “Patrão! O sistema ribunocleico de próclise e mesóclise da intrísseca prosopéica remêneutica está completamente enferrujado, como o senhor pode ver.
- “O Hamálico Prefúsico vai ter que mudar também. Olha aí!”
- “Essa peça nova não coube. Tem que achar outra parecida.”

Trocar algum produto em lojas grandes de material de construção é mais complexo e burocrático que papelaria.

- “O senhor vai ali, pega lá, chupa aqui, toma cá e depois volta para pegar o cupom que o senhor terá que retirar lá embaixo na seção de retirada de troca de produto.”
- Olha, mas eu estou sem a nota fiscal.
- “Sem nota é impossível.”
- Posso falar com o gerente?
- “Pode! Mais já adianto que será em vão.”
- Obrigado, espero que o seu dia seja ótimo também.

A gerente era uma mulher baixinha de pele morena e cara redonda feito um Trakinas. O uniforme não salientava as curvas do seu corpo.  Não que eu quisesse contemplá-las..

- Bom dia meu amor! Eu preciso muito da sua ajuda...

Quando a gerente Trakinas levantou a cabeça para mim... seus olhos se encheram de luz como se visse o próprio Jesus Cristo.

- “Thalles Robertooooooooooooooooooooooo!”

Quem?

- “Thalles Roberto! Eu Adoro você! Sou muito sua fã!”
- Hehe... olha, com certeza você...
- “Minha mãe te amaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!”
- Hehe... muito legal... Mas é que...
- “Só um minutinho que tem uma colega que vai pirar em ver você aqui. Sarahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh”

Fudeu.
Estava com uma ressaca shrekiana.
Com os óculos escuros parafusado na cara.
No começo achei que ela estava me confundindo com algum pagodeiro ou sertanejo, mas aí ela começou a falar muito de Deus então percebi que devo ser parecido com algum cantor evangélico.
Era só o que me faltava.

A outra vendedora era mais histérica. Veio pulando de longe feito micareteira quando encontra a amiga num bloco de carnaval.

- “Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!”

Acreditem... sou tímido.
Ela veio pegando demais para uma serva do senhor.

- Hehehe...Tudo bom?

Confesso que dei uma ensaboada na garganta no melhor estilo Bond Boca.

- “Que voz maravilhosa abençoada por Jesus! ”

Sem querer ser metido, mas...
A minha voz é charmosa, profunda, aconchegante e divina mesmo.

Com a cara de Angelim que Deus me deu, autografei no bloco de pedidos dela. Sem ter ideia de como se escrevia o nome do cara, fiz um desenho abstrato e ainda botei no final aqueles três pontinhos da maçonaria.
Só sei que não enfrentei fila e ainda troquei o produto sem nota e sem nenhum problema.

Os evangélico é tudo unido!

- “Só preciso do seu CPF Thalles.”
- Não conheço nem o cara, quanto mais o CPF dele. Dei o meu.
- Ué? Está constando em nosso sistema como Angelo Morse.
- Han? É, né... Você sabe guardar segredo?
- “O que foi?”
- Esse é o meu nome verdadeiro.
- “Jura? E de onde vem o Thalles Roberto?”

Mandei de trivela com os olhos fechados e sem pudor:
- É que... eu sou fã do Thales Pan Chacon e do Roberto Carlos.

Ela deu uma arqueada na sobrancelha, sorriu, mas sacou o caô.

Levei um tempo sem voltar lá e comprei o resto do material em outra loja, que de tão famosa tem nome e sobrenome.
Inclusive foi nessa que eu comprei toda a cerâmica das paredes das salas, num precinho muito, mas muito em conta, por sinal.
Sem querer dar mole para equação de pedreiro, malandramente, trouxe cinco metros a mais, para quando chegasse no final, não ter que escutar...

- “Aí patrão! Vamu precisar de mais duas caixas dessa cerâmica.”

Puta que pariu! Praga dos arquitetos, que segundo eles, são mediúnicos e matemáticos exatos.

Volta o cornélico para loja de material de construção.
Na verdade fui tantas vezes nessa loja que já tinha lugar cativo na mesa do café da manhã com os funcionários.

- Oi minha querida, tudo bom? Preciso de mais duas caixas daquela cerâmica que levei na sexta feira. Lembra?
- “Lembro. Aquela azulzinha cheio de quadradinho?

Vendedora negra, simpática, gordinha e bonitinha. Daquelas que quando ri, surgem duas covinhas na bochecha que dá vontade de apertar.

- Essa mesmo.
- “Acabou”
- What?
- “Você levou todas as últimas caixas.”

A sensação de um pepino adentrando o ânus.

- Mas por que diabos você não me avisou?
- “Você não perguntou.”

Senti com a língua que os meus caninos estavam maiores e pontiagudos.
A vontade inicial foi morder a cabeça dela como se fosse uma Tortuguita.

Mentaliza o azul... mentaliza o azul...

- Tem certeza que não tem no estoque?
- “Tenho. Esse modelo saiu de linha porque a fábrica lançou uma versão parecida.”

A porra da cerâmica era 31 x 31, a nova 31.5 x 57.
Fabricada especificamente para currar com a minha vida.

Tal qual o Pensador, sentei no vaso sanitário do mostruário e desabei em desalento, desespero, dor e drama.
O black power murchou feito samambaia chorona na seca.

Tortuguita viu minha depressão e ficou com pena:
- “Mas olha só... Constam dez caixas no estoque da outra loja.”

Brilho nos meus olhos.

- Onde? Onde? Onde? Onde?
- “Na loja da BARRA DA TIJUCA”

Nocaute.
Barra é foda! Não gosto de ir lá! Acho tudo muito exagerado e distante. Fora o engarrafamento jabutinesco que iria pegar.

- “Mas é bom ligar para confirmar.”
- Você pode ligar para mim?
- “Infelizmente não estou autorizada.”

56 minutos ouvindo a maravilhosa música da loja que merecia ganhar um prêmio de pior música de espera de todos os tempos.

Já no meio do caminho consegui falar com a vendedora do setor.

- “Realmente constam dez caixas desse produto.”
- Guarda para mim que estou chegando aí, por favor.

Essa vendedora era uma loirona muito maquiada e cabeluda com tração nas quatro rodas.  Parecia uma Elke Maravilha com injeção eletrônica. O crachá parecia um boche entre os seios.
Não que eu tenha reparado.

- Ufa! Tudo bom? Puxa! Que martírio para achar essa cerâmica.
- “Imagino. Deixa eu ir no estoque só conferir o seu pedido.
-  Obrigado, eu só quero duas... Três... Melhor quatro caixas.

Meia hora depois, volta a Elke Poposuda com cara de pataquara:
- “É...Seu Angelo... na verdade... houve um erro no sistema.
- “Ah não... Quantas têm?”
- “Nenhuma. A informação é que saiu de linha para sempre.”

Já viu mamãe porco espinho tendo parto normal?
Fechei os olhos e fiquei amarelo feito Bruce Lee com caganeira.
Encolhi-me no piso frio da loja e fui morrendo aos poucos.
Feito um Tamagoshi solitário e carente.

- “Sabe o que é curioso? Aqui no meu sistema está constando quatro caixas em nossa loja de Bangu.”

Sabe o que é curioso? O tecido dos lábios e do clitóris é o mesmo que o da glande peniana?

- Oi?
- Oi
- Bangu?
- É, parece que tem em nossa loja de Bangu.

Bangu é sacanagem.

- “Mas é melhor ligar para confirmar.”

Jura infeliz?

Você poderia ligar para mim, por favor?
- “Infelizmente não.”

Olhei dentro da alma da mulher com as pupilas negras e dilatadas:
 - Fiquei uma hora ouvindo a porra da musiquinha de vocês em versão sertanejo, olha a minha cara de quem quer ouvir a versão funk.
- “O senhor pode passar um e-mail. Eles respondem mais rápido.”
- Você pode passar para mim?
- “Infelizmente não”

Espero que no carnaval você engravide de um mendigo vestido de pierrô.

- “Oi?”
- Vou lá pessoalmente então. Boa semana para você.
- “Desculpa não poder ajudar”

Morra!

Antes de entrar no carro, enviei a porra do e-mail para loja, mas nada de resposta, claro.

Bangu é mais longe que prisão perpétua
Após duzentas horas, cheguei virado nos sete cangaceiros.

A gerente do setor era uma anã grande de bigode oxigenado.
Parecia o Eufrazino da turma do Pernalonga.

- “Veio de tão longe por que?”

Mentaliza o azul...mentaliza o azul...

- “Era mais perto ter ido na loja de Niterói.”

Men-ta-li-za-o a-zul...

- “Ou na loja da Barra.”

O azul, azul, azul, azul...

- Moça bonita. Já fui a todas. Só preciso que você confirme para mim se realmente existem as quatro caixas no seu estoque, por gentileza.

- “Tem sim.”
Comprei as últimas caixas pelo dobro do preço.

Voltei para casa, com a missão acrobática de não quebrar tudo andando por aquelas ruas que mais parecem uma caixa de ovo.

Chegando em casa, recebo um e-mail:

- “Sr Angelo Morse. Esse produto saiu de circulação. Mas ainda consta em nossas lojas da Barra da Tijuca e de Goiânia.
Obrigado pela preferência.

Você responderia o que?

As duas melhores respostas concorrem a camisa do Conta Uma que será lançada em Fevereiro.

Não se esqueçam de divulgar nas redes sociais que o C.U voltou.
Aguardem as novas histórias bem mais divertidas. 
Mãos à obra e que venha 2013
Obrigado pela preferência.
Abraço.

E para finalizar, um agradecimento especial ao cantor Thalles Roberto.


sábado, 15 de dezembro de 2012

Hermes e Renato




Uma rápida?

Em vários livros que já li, o inferno é descrito praticamente sempre da mesma forma:

Um lugar horrível, repleto de ruídos insuportáveis, odor desagradável, pessoas derretendo, carregando pesos, sentindo dor, medo, humilhação, vergonha, cercados de caras feias, sofrimento, olhos lacrimejantes, gritos aterrorizantes, corpos nojentos e suados, monstros, barulho de ferro, vaidade extrema e luxúria.

Já eu, chamo de academia de ginástica.

- “Amor, vambora!”
- Já vou! Só um momento.
- “Você já se olhou no espelho vinte vezes.”
- Reparou como eu fico bem com esse tênis?

Comprei um tênis de corrida.

- “Tchau! Vou malhar na academia mesmo!”
- Poxa, mas você sabe que...
- “Tchau.”
-... não posso entrar lá.

Não entro em academia.
 Um, dois, três pé de pato, mangalô três vezes!

- Então, tá! Vou correr na praia mesmo!

Gritei para a porta.

Nunca vi muita objetividade em correr se não fosse para pegar o ônibus.
Mas até que correr na praia é legal.
O visual, o clima, o ar quase puro...

Estou correndo no momento.

É engraçado como às vezes a gente passa a vida sem conhecer o próprio corpo, né?
Eu por exemplo, descobri que corro muito bem.
Meu único problema é respirar enquanto faço isso.

Estou cansado no momento.

- “Cansou moreno?”

Nem a voz feminina me fez levantar a cabeça e os olhos, muito menos tirar as mãos dos joelhos.

- Não... eu... só... é só uma dor na coxa.

Mentira! Estava sem ar mesmo.
No dia anterior, a pessoa bebe igual puta de folga.
No outro dia quer correr.
O álcool fermenta, borbulha no estômago e espuma pela boca.

- “Você se alongou?”
- Hummm... não. Mas já está melhorando

Quando comecei a correr, tive que traçar um plano fajuto na minha cabeça, só para me distrair.
Eu descanso, mas se passar um velho ou uma mulher perto de mim correndo, tenho que manter o ritmo deles.

- “Então vamos lá?”

A mulher parou do meu lado e ficou correndo sem sair do lugar, feito um brinquedo de camelô.

Era uma coroa bonita.
Parecia a Vó da Polly.
Com tudo em cima.
Cabelo, silicone e botox.
Toda montada nessas roupas de ginástica.
Vamos combinar que as roupas de ginástica que as mulheres usam é um caso á parte! Diz que não?
O tênis era impecavelmente branco. Novo como se ela tivesse um para cada dia do ano.
A meia grossa, ia até as costas do joelho.
A calça era rosa choque camuflada, rajada de roxo e amarelo, como se a Isabelita dos patins fosse dos Comandos em Ação.
Top preto, toalhinha amarela e viseira.
No braço, o que parecia ser um relógio de maneta, era um marcador de batimentos cardíacos.

- “Vamos moreno?”

Sabe-se lá o porquê, ela simpatizou comigo.
Quer dizer... eu sei porque... sou fofo e charmoso.

Não ia deixar a Vó da Polly, cheia de disposição, tirar uma onda com a minha cara, né?

- Vamos lá!

Ela tinha ritmo e estava a fim de conversar.
Eu tinha gases e só dizia: É!

Reparando as pessoas curiosas que passavam correndo.

Tem aquela gostosona de bunda grande que corre em câmera lenta como se estivesse num concurso de bunda mais bonita da cidade.
E o cara musculoso que jura que faz parte da Liga da Justiça indo salvar o planeta.
O gay apertado na lycra, sem um pêlo no corpo sequer que corre como se quisesse fazer xixi.
O velhinho tarado com torcicolo que nem corre, só quer ver a mulherada.
Tem aqueles que correm tentando alcançar a autoestima.
Tem o suado derretido que corre esbaforido como se um Javali o perseguisse.
Os maratonistas, atletas e lutadores.
E é claro... A maioria que só quer emagrecer mesmo...

Existem pelo menos cinco coisas que emagrecem comprovadamente:
Chifre, doença, sibutramina, crack e corrida.

Melhor correr!

- “Vai subir?”

Han?

- Han?
- “Vai subir correndo?”

Tinha até esquecido da Vovó Polly ao meu lado.

Subir correndo...
No fim da praia tem uma “montanha” gigante que dá num Museu muito maneiro inclusive, em forma de disco voador, criado pelo finado Oscar Niemeyer.

Estranho falar isso... Finado Niemeyer...fi-na-do-Ni-e-mey...
Enfim...

E eu estava de ressaca.
Só queria fazer um Cooperzinho para ficar de cooper feito..
E descobri que não usam mais essa palavra, muito menos a piada.
Foda-se.
Devo nada para essa coroa...
Mulher chata, cheio de fôlego ainda.

- Vou subir não.

E desabei.
Ok... Ela me venceu, deve tomar chá com esteroides.

- “Vamos caminhando então?”

Porra...
Ela parecia uma mistura de personal trainner com aquele pessoal que dá sopa para mendigo?
Estava querendo me ajudar.

- Hummmmmm... É que...
- “Só para gente concluir.”
- Tá.

Subimos o elevado andando.

De repente a porra do bipzinho cardíaco da coroa estava apitando mais que o Wolverine na porta do banco.

- Tudo bem?

Ela foi desfalecendo feito boneco de cera em sauna.

- Xi.....

Esse negócio de ser saudável, às vezes faz mal para saúde.

Sentei a Vovó da Polly no banco.
Conta comigo. Um negro correndo no calçadão da zona sul atracado com uma loira... dou-lhe uma, dou-lhe duas...
Rapidamente várias pessoas apareceram para ajudar com copos d’águas e leques.

Como não sou médico, nem parente, nem escoteiro, nem bonzinho.
Fui embora.

Continuei subindo.
Até comecei a correr de novo.
A vista é muito bonita.
Infinitamente mais prazeroso do que correr em esteira de academia.
Um, dois, três, pé de pato, mangalô, três vezes!

Lá de cima você vislumbra todo o horizonte.
É bem alto.
Seria uma queda e tanto nas pedras se alguém por descui...

Mermão...
Tomei-lhe uma porrada na nuca de algum animal voador...

“PAH!”

Escorreguei e quase caí do penhasco. Quase mesmo!

O cu travou igual discussão de gagos.

- Que porra é essa?

Primeiro achei que tinha sido atacado por um Pterodátilo.
Mas como não tem ninho deles ali por perto...

 Depois percebi que o bicho agonizando no chão, fazendo ruídos estranhos era um avião.

Tal qual o WTC fui atacado por uma porra de um aviãozinho desses de aeromodelismo.

Machucou.

Aí vem descendo o Bin Laden com o controle na mão.

- “Ô, meu amigo, me desculpa!”

Não.

- “Me descuidei.”
- O problema é que eu quase caí, lá embaixo. Tem que tomar cuidado. E se fosse uma criança?

Dei um esporro com minha voz de esporro.

- “Claro, claro... você tem razão.  Qual o seu nome?
- Angelo Morse.
- O meu é Renato, vou te pagar uma água de côco pelo incidente.”
- Não precisa.
- “Faço questão.”

O avião era maneiro, grande, bonito e vermelho.

Renato mexia no aviãozinho com a delicadeza de um ginecologista e a paixão de um Romeu.
Acariciava como se fosse uma criança.

- Graça a Deus, foi só um arranhão na asa esquerda.

E outro no meu pescoço.

- Como funciona?
- “É tudo pelo controle.”
- Hummmmmmmmmmmmmmm...
- “Quer ver?”
- Sim, sim.

Maneiríssimo o aviãozinho mesmo!
Fazia as acrobacias perfeitas e viajava ousadamente por cima da praia.

- Mas vem cá... E se ele cair na água?
- “Não cai.”
- Por que?
- “Porque não. Eu não deixo.”
- É... seria uma merda para pegar de volta.
- “Nem fala.”

E o aviãozinho voando sobre o mar.

- Mas você já viu algum cair na água?
- Nunca.

No momento exato que ele falou isso...

Acreditem ou não...

O avião caiu na água.

- “Puta que pariu!”
- Ih... rapaz...
- “Porra! Que boca!”
- E agora?

Renato sem reação olha o aviãozinho náufrago.
Ia dar um trabalho da porra para resgatar o brinquedo.

Como não sou bombeiro, nem salva vidas, nem amigo, nem bonzinho.
Fui embora.

Desci com um pecador sorrisinho "coringuesco" na cara.

Por via das dúvidas, resolvi correr.


Antes do fim do mundo sai outro.  Divulguem para mim...