sábado, 29 de setembro de 2012

C.U DOCE


Trabalhei anos num escritório dentro de uma galeria que dava para a rua.
Tinha uma Tiazinha que todo dia 27 de setembro, na hora do almoço entregava saquinhos de São Cosme e Damião por lá.

Era mais certo que criança mijar em piscina.

Eu ficava, igual menino, esperando na calçada.
Já era burro velho para pegar doce na rua, mas ela me dava mesmo assim.
Eu gostava porque remetia a minha infância.
Sou viciado em cocô de rato e nem sei do que é feito aquilo.
Lembro que eu pegava o saco inteiro e...

- “Aceita senhor?”
- Puta que pariu, que susto!

Veio uma mão gelada no meu ombro.
(Um mamão é cacófato, né? Vou reescrever)

Senti a mão gelada de alguém no meu ombro.

Era uma mulher bonita.
Mas tentava esconder isso por algum motivo.
Os lábios que quase não se tocavam por completo, eram cor de rosa muito claro.
O nariz era fino demais, só que de alguma forma combinava com os olhos redondos, caramelados com cílios grandes.
Deu para ver que o cabelo era grande e volumoso, apesar de estar bem amarrado e preso numa artesanal trança embutida com mil grampos... Alguns fios grisalhos se exaltavam entre o resto do cabelo que precisava urgentemente de uma hidratação tendo em vista o aspecto ressecado e seboso que se encontrava.
Ela não tinha resquícios de nenhuma maquiagem, adornos e muito menos, qualquer marca da luz do sol.
A blusa estampada e reprimida precisava de muito esforço para disfarçar os seios volumosos, mas conseguia por ser fechada até o último botão de tal forma que parecia sufocar o pescoço.
Uma saia bege claro, meio transparente e pregueada, caía por cima até o pé onde um sapato marrom de bico pontudo e fechado, concluía o figurino
Era bonita, mas precisava de muita boa vontade e paciência para alguém perceber.

Ela me entregou um santinho, mas eu nem olhei quem era o político.

- Não, obrigado! Já tenho candidato.
- “Mas esse é o nosso Senhor Jesus Cristo!
- E Jesus é candidato a que?

Perco o rim, mas não perco a piada.

- “Ele não é candidato. Ele é para sempre eleito!”

Falou isso alto e com um olhar arregalado de pintor surrealista.
Olhei para os lados, sem graça.

- Desculpe, entendi errado.
- “Você já aceitou Jesus sobre todas as coisas? ”

É quase uma ameaça essa porra!
Ela piscava repetidas vezes e não conseguia focar os olhos diretamente nos meus.

- Hummmm...Acho que não.
- “Posso lhe falar um pouco da verdadeira palavra?”
-  Não.
- “Você já estudou os ensinamentos da Bíblia Sagrada?”
- Não.
- “Você sabe que na batalha do Armagedom, toda a humanidade que não  fizer a vontade de Deus será destruída sem esperança de ressurreição?”
- É mesmo? Isso vai dar uma merda...
- “Os únicos que serão salvos, são...”
- Olha minha querida, eu entendo perfeitamente que na sua cabeça, você pense que está fazendo uma coisa boa, mas comigo não vai rolar.
- “Tu não quer ser salvo?”
- Não.
- “Mas tu é um rapagão bonito, inteligente. Ainda tem salvação!”

Esqueceu do gostoso, charmoso e bom de cama, mas tudo bem.

- Vai por mim moça, definitivamente, comigo não vai funcionar.

E a Tia dos doces nada de aparecer...

Eu não tenho religião, mas também não tenho nada contra todas elas.
Na verdade tenho.
O fato é que existem pessoas, não são todas, que não te respeitam, nem se contentam em serem apenas religiosas. Precisam te arrastar para a religião delas, a força!

Bom...vou dizer que comigo tentaram de tudo que já foi jeito.

Os católicos...
- “...Sexo só para procriação. O resto é pecado”
- Não, obrigado.

Essa foi fácil. Tenho muitos amigos gays, ia pegar mal.

Os umbandistas:
- “Você é filho de Oxossi com Iemanjá e afilhado de Xangô. Precisa fazer um trabalho para os seus santos, menino!”
- Quero não, obrigado!

Se eu não saio de noite nem para dar comida para as crianças que morrem de fome na rua, vou dar pipoca e canjica para entidade?

Os macumbeiros:
- “Para abrir os seus caminhos você precisa fazer um despacho para o Seu Tranca Rua.”
- Quero não, obrigado.

Só se ele acabar com o engarrafamento.

Os kardecistas...
- “ Você sabe porque isso acontece entre vocês, né?
- Por quê?
-  “Porque em outra encarnação você foi filho de um soldado Romano que tinha caso com Pilatos e era primo da sobrinha de Cleópatra.
- Eu? Mas...
- “É, e vocês se juntaram com afilhado de Gandhi para prender Robespierre na masmorra de Gengis Khan.
- Jura? E aí?
- “Você o matou pelas costas com uma serpente.”
- Puxa vida!
- E se você não resgatar isso nessa vida, vai ter que reencarnar umas cem vezes até consertar tudo.
- Não, obrigado.

Muito trabalho só para fazer o vizinho parar de mexer no meu jornal.

Os budistas:
- “Sabia que esse porco no seu prato pode ser tua tataravó?”
- Não, obrigado!

Eu hein...

Os Mórmons...
- “Eu creio na coligação literal de Israel e na restauração das Dez Tribos, e creio que Cristo reinará pessoalmente sobre a terra e que a mesma será renovada e receberá sua glória paradisíaca.”
- Ok, tudo bem, mas é verdade que vocês podem ter várias mulheres ao mesmo tempo?
- “Não. Isso é boato.”
- Então, não. Obrigado!

Minha curiosidade era só essa.

Até o pessoal do satanismo...
- “...É só você venerar Satanás sobre todas as coisas.”
- Eu sei, mas me explica um detalhe. Não que eu queira, mas digamos, sei lá, apenas como uma hipótese, que eu queira fazer mal a um cantor cuja a música me irrita profundamente. Dá?
 - “Sim. É só você tomar essa caneca de sangue sem derramar uma gota e falar o nome dele ao contrário.”
- Hummmmmmmmmmmmmmmmmmm...Não, obrigado.

Fiquei tentado.

Enfim...Todo mundo fica querendo me converter.
Deve ter uma foto minha oferecendo recompensa em algum lugar.

- “Fique sabendo que Deus tem um projeto muito bonito para sua vida.”
- Como é que você sabe?
- “Ele me disse.”
- Pelo Orkut?

Deus tem a maior cara que tem Orkut.

- “Ele fala comigo, e nesse momento está dizendo para eu não desistir de você.”
- Vai por mim moça, pode desistir.
- “Você tem uma voz tão bonita, já pensou em entrar para um coral?
- Rsrs...Não.

A Tia está atrasada com os doces.

- “Você é músico?
- Não.
- “Mas que tipo de música você gosta?”
- Pagode

Mentira

- “Você sabia que existe pagode gospel?”
- Jura? Não consigo imaginar em algo mais espetacular para ouvir.
- “Então, meu filho, faça de hoje, um sim para Jesus.”

Bonito isso.

- Não quero não, moça, muito obrigado mesmo.
- “Se você está lutando contra algo mais forte que você, não lute sozinho, aceite a palavra.”
- Eu estou bem.
- “Saia desse mundo de pecado.”

Me ignorava completamente.

De repente minha salvação chegou. A Tia!

Você me dá licença, a pessoa que eu estava esperando chegou. Boa sorte!

Olhei para tia com jeito maroto, esfreguei as mãos e lambi os beiços.
- Oba, oba, oba!
- “Oi meu garoto grande, tudo bem?”
- Tudo ótimo Tia.

Ela tirou da bolsa um saquinho de São Cosme Damião e me deu.

- “Deus te abençoe meu filho.”
- Obrigado!

Quando eu me virei, A mala no mesmo lugar, em pé me esperando.
Segurando uma bíblia com as duas mãos, lançando um olhar doentio e um sorriso amedrontador.

- “Sabe o que eu acabei de descobrir? Você é minha missão!”

Eu devo ter jogado estrela ninja em Madalena.

Fiz que não com a cabeça, desviando dela e dando nosso assunto como encerrado.
Rasguei o saquinho de cocô de rato com a boca e joguei um bocado para dentro.

Mermão... Quando A mala bateu o olho no saquinho de doces...
Parecia que eu estava com um crânio de macaco sangrando na mão.
Ela surtou.

- Está amarrado! Isso é coisa do Demônio!
- Mumfsdfsdfk?

Nem consegui falar com a boca cheia.

- “Não come isso, menino, que é coisa do capeta!”

Deu um tapa e jogou o saco de São Cosme Damião no chão.

Mermão...
Uma cauda pontiaguda em forma de flecha foi crescendo no meu cóccix.
Duas asas negras se abriram nas minhas costas.
A cabeça rodou 850 graus.
Toda a minha paciência se esvaiu esgoto abaixo.
E testemunhas dizem que um fedor de enxofre tomou conta do ar...

Fiz o que qualquer pessoa sensata faria:
Peguei uma maria mole como se fosse uma lagarta morta.

- Isso aqui é coisa do Diabo, sua maluca?
- “É!”

Acertei no pé da orelha.
A mulher gritou como se tivesse queimado.

- E isso aqui?
Tomou uma paçocada no cabelo.

Começou a andar para trás mais rápido, mas ainda deu para mandar um suspiro na testa.

Ela correu me chamando de demônio.

Não tomou com um doce de abóbora na lata porque aquela merda podia abrir a têmpora dela.

Peguei a mariola e...
Bom, a mariola eu comi.



OBRIGADO PELA ESPERA.
ESPERO QUE TENHAM GOSTADO.
NÃO ESQUECE DE DIVULGAR PARA ME AJUDAR, TÁ?
NÃO MUDE DE CANAL. AGUARDEM O LIVRO


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Meu Querido Ponei



Hoje em dia, na escuridão dos bares e das boates, qualquer identidade é revelada pela luz branca do smartphone.

No meu tempo não.

Cansei de abordar mulheres, amparado apenas por penumbras ou luzes estroboscópicas que quase cegavam a gente.
E por muitas vezes, um amor à primeira vista no escurinho, não sucumbia à legitimidade e franqueza da claridade.
A saída de uma boate, por exemplo, podia se tornar momentos de suspense e até um certo transtorno para ambos os lados.
Claro que para aqueles que são considerados mais bonitos, o problema é sempre maior.
Quando se é jovem, fútil e imaturo então...

- “Imaturo uma porra! A mulheres parecem uns gremlins!”
- Ah Bunitu! Pára que elas são charmosas!
- “Charmosas? Você viu o tamanho das orelhas da garota?
- E daí?
- “Tá de sacanagem? Se bater um sudoeste ela voa uns duzentos quilômetros!”

Realmente a mulher que Bunitu tinha pego parecia o Corujito* da She-Ra.

(*Vai no google!)

- Deixa de bobeira.
- “Vai me dizer que você nem reparou na boquinha da sua?”
- Cara, não reparei nada. Não sou chato igual a você!

Mentira!
Percebi que a mulher tinha três andares de gengiva e centro e trinta dentes.

- “Angelo... A mulher parece um pônei!”

Tive que gargalhar.

- Parece nada!
- “Tá bom! Você que não pode ver uma loira que se derrete.”
- Derreto nada.

As loiras conseguem encobrir e disfarçar várias imperfeições.
O mito de que elas são mais bonitas, supera e muito, o mito de que ela são mais burras.

Bunitu, de sorriso aberto, manda entre os dentes, pela esquina do rosto:
- “Olha o enredo do nosso carnaval...”

Eram as meninas que voltavam do banheiro rebolando e simpáticas.
Se elas fizeram algum comentário imbecil ou maldoso feito o nosso, e claro que fizeram, ficou trancado entre os azulejos.

As duas eram loiras, maquiadas e determinadas.
Corujita era loira real.
Mas “Meu Querido Pônei” era mais artificial que as maçãs que vendem no MC D`onalds.
Um dia fui abrir uma maçã dessas no meio, e achei um Tamagoshi.

Enfim! Na verdade ela tinha exagerado tanto na água oxigenada que o cabelo estava quase branco.
Parafinado, saca?

Na época, usar cabelo loiro era moda, igual usar cabelo alisado hoje, e igual usar ombreira foi no passado.
Looks que só servem para o seu filho rir da sua cara quando crescer.
Sabe como é, né?

- Então, o galã! Se as mulheres são tão horrorosas como você está pintando, o que vamos fazer com a nossa noite?
- “O que fazemos todas as noites, Pink: Tentar dominar o mundo!”

Quando a mulher não era linda, Bunitu sempre reclamava.
Igual mulher reclamando das calorias do brigadeiro? Reclama mas come.

E ele podia até ser um cretino, mas quando estava ao lado de uma mulher, tratava-a feito uma rainha.
Sacudiu suas madeixas de shampoo de tesão de vaca e tascou um beijão na menina como se fosse final de temporada.
Dançarino de tango.

Ele deu a deixa, eu fiz o mesmo.

- “’Podemos ir onde vocês quiserem, apesar de eu achar que lugar de princesa é no castelo.”

Olha o papinho dele...

Deu uma rodadinha na mulher como se estivesse homenageando-a, mas na verdade estava só conferindo o material.

Corujita e Meu Querido Pônei eram maneiras.
Não vou chamar as mulheres assim não que é sacanagem.
Samantha e Soraia eram maneiras.

E foi Samantha que mandou, como se não soubesse..

- “E onde seria esse castelo?”
- “Numa suíte com piscina, pista de dança e vista para o mar.”

Assim disse Onário:
Castelo: Um motelzinho xexelento-metido-a besta, que de tanto Bunitu freqüentar, devia ser sócio.
Diz a lenda que ele tinha carteirinha e pagava carnê.

- “Ah... Não sei,a  gente se conheceu hoje...!”
Bonito olhou fixo para a mulher.

- “Fica tranqüila! Não é para fazermos nada demais! Só para continuarmos essa noite espetacular em grande estilo, com companhias agradáveis. Não é Angelo?”
- ..............................
- “ANGELO!”
- Han? É, é sim, claro!

Eu sempre me perdia quando Bunitu falava.
Realmente a forma que ele fazia brilhar os olhos azuis era impressionante.
E terminava todas as frases jogando o cabelo para o lado.
Mandava qualquer conversa fiada e as mulheres caíam.
Quando a pessoa é muito bonita não precisa ser interessante. Fato!

- “E aí, vocês topam?”
- “Por mim tudo bem!”
-  Então vamos.
- “Só um minutinho!”

Bunitu era um gentleman.
Abriu a porta do carro feito o Richard Gere, limpou todo o banco com flanela perfumada e escorregou a mulher delicadamente ao lado dele como se ela fosse da realeza.
Presepeiro.
Eu e Soraia entramos com menos pompa.
Partimos para o castelo.

Mini-Flashback:
Antes de entrar no carro, sussurrei no ouvido dele:
- Olha só! Eu não tenho dinheiro para pagar suíte premium, não?
- “Calma criança! Quem tem cartão não precisa de esperança.”
- Cara...
- “Eu pego a Premium, você pega a Simples e depois vocês vão para lá. Deixa comigo.”
- Tudo bem, mas se tu vier com esse olho azul para cima de mim...

Nesse dia ele tava que tava.

Para vocês terem uma ideia. Ele ia tanto nesse motel que já tinha comido a recepcionista.
Juro!

E mulher sabe como é, né...
- “Oláaaaaaaaa! Vai querer o de sempre senhor?”

A recepcionista mandou essa, de maldade, ciúme e falta de profissionalismo.

Mas Bunitu desconversou com elegância:
- Hoje não! Hoje a noite é mais que especial! Quero uma Suíte Premium e para o meu amigo...
- Duas Suítes Premium!

Coisa de homem.
Era 1/3 do meu salário, mas quando eu bebo viro Sheik.
Na emoção vai no cartão!

As loiras se riram, toda boba.
Mermão...Quando abri a porta da suíte...
Soraia parecia que estava entrando na Disney.

Peguei do frigobar uma cerveja para nós.

- “Acredita que é a minha primeira vez...”
- Cuspi a cerveja no espelho!

Nunca transei com uma virgem.

- “...minha primeira vez no motel.”
- Hummmmmmmmm...

O lugar até que era legalzinho.
Mas eu confesso que particularmente nunca fui de curtir muito motel com pista de dança, piscina, mesa de ping-pong, essas coisas.

Um lugar com tanta coisa para se distrair assim, prefiro levar...sei lá...Minha mãe!

Mas tudo bem...
Não existe coisa mais cretina que aquele papelzinho que botam no banheiro do motel escrito: 100% higienizado
Ninguém em sã consciência acredita, mas é melhor não pensar no assunto.

Toca o telefone imagina quem é?
- “Que piscina hein?”
- É...maneira.
- “Já nadou?”

Por que diabos alguém ia querer chegar num motel e nadar?

SPLASH!
Bom, parece que Soraia queria.

- Tchau Bunitu!

Fui lá com a mulher preencher todos os requisitos conforme o protocolo.
E depois de algum tempo, dormi.
Soraia ficou na piscina.

Acordei de manhazinha com o Bunitu no telefone.
- “E aí garanhão, vamos embora?”
- Vamos...
- “E a mulher?”
- Tá aqui dormin...

Quando olhei para mulher ao meu lado pulei da cama com o susto que eu tomei.
- Que porra é essa?
- Soraia! Soraia!...SORAIA!

A MULHER ESTAVA VERDEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!
O cabelo da mulher... Estava muito, muito, muito verde!

Cara...Não sou capaz de traduzir em palavras o espanto da mulher quando viu seu próprio reflexo no espelho.

Quando a mulher virou para mim, com os olhos vermelhos, inchados e o cabelo completamente verde...

Fiz o que qualquer macho faria: Procurei uma faca e uma bíblia.

A mulher parecia a menininha do Exorcista, malandro!

Tadinha! Lavava a cabeça desesperadamente, mas nada mudava.
Chamei a Equipe Brother para me ajudar.
Samantha, solidária, foi socorrer a amiga.
Em vão. Parecia que o cloro que botaram na piscina era amaldiçoado e impiedoso com quem pintava o cabelo.

Bunitu foi tirar satisfação com a gerência e conseguiu um descontão na conta.
Ele era bom nisso.

Fomos embora, eu e Bunitu na frente e Corujita e a Noiva do Hulk atrás.

Dentro do carro a vontade de fazer piada era grande, mas ninguém teve coragem.

Mas assim que as mulheres saíram do carro, Bunitu não se aguentou...

- “Num tinha um pônei que era todo verde?
- Tinha, Babaca, tinha...


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domingo, 2 de setembro de 2012

A BELA ADORMECIDA



Você percebe que perdeu a dignidade quando precisa jogar charme para o mecânico na tentativa desesperada de conseguir um desconto no conserto do seu carro.

Mas achar uma oficina com preço justo é mais difícil que pedreiro vegetariano.

Tabela de mecânico varia mais que humor de mulher na TPM.

Eles tiram vantagem do nosso sofrimento.

- Esse eu vou conquistar.

Já cheguei para conversar com o camarada levando um café no copo descartável e um sanduíche de pão com mortadela.

Para quebrar o gelo.
Ele achou graça.

Abusei do meu sorriso garfieldiano, mostrei respeito e interesse pelo trabalho dele, ouvi suas questões, suas angústias, seus sonhos...

Ele foi amolecendo, mas o serviço ainda estava muito caro.

Sentei no sofá deixando a bermuda revelar um pouco das minhas pernas cabeludas e bem torneadas.

Depois fiquei massageando por cima da camisa, meu mamilo direito que é o mais sexy e hipnotizador.

Faltava pouco para eu tirar com o dedo uma marca de graxa no canto da boca dele

Consegui um desconto de R$ 150 reais no orçamento e mais uma polida de graça.
Nem precisei fazer sexo.

Sou muito charmoso.

Quando você se acostuma com carro é uma merda.
A pé, tudo parece mil vezes mais longe do que é realmente.

E eu tinha uma lista gigante de coisas para comprar...

No fim do dia, após rastejar por todos os becos do centro, me vi na fila do ônibus cheio de sacola.
Igual aquele boneco mexicano que fuma um cigarro para dar sorte, lembra disso?

Deixa para lá.

Era a hora do rush.
Na verdade, o trânsito anda tão caótico que toda hora é hora do rush agora.

Uma das coisinhas que eu carregava era um fardo com dez bambolês.
Nem me pergunte.

Quando o ônibus surgiu, rolou aquele frisson humano. Pareciam somalianos no MC Donald`s.

A fila virou uma bagunça e eu fiquei naquela de adivinhar onde o ônibus iria parar para eu ser um dos primeiros a entrar.
Subir num busão com cinco sacolas pesadas, cheio de bambolês no pescoço deveria ser esporte paraolímpico.

Após contar com a benevolente ajuda do trocador e acertar o crânio de uma três pessoas, entrei.

Ingenuamente, fui para o final do ônibus numa ilusão que lá seria mais confortável.
Fiquei no meio onde tinha mais espaço no chão para guardar as coisas.

Um homem mais negro e mais forte do que eu,  parecendo o Jacaré do “É o Tchan”, sentou-se ao meu lado.

O que fui ruim, pois me tirou liberdade do lado direito.

E uma mulher bonita, mas de cor pálida, com seios apessegados e joviais, me pediu licença para se sentar do meu lado esquerdo.

Fiquei meio que esmagado entre os dois.
Mas tudo bem.

Saquei um livro de dentro do cabelo, encostei-me no banco e relaxei.

O trânsito do Rio de Janeiro parecia imagem de cartão-postal. Imóvel.

Me deu até sono.

Travei as sacolas com o pé e tentei cochilar.

Tentei, mas...
“Toda vez que eu vejo você, sinto uma coisa diferente...”

Isso mesmo! Por mais clichê que possa parecer, tinha a porra de um filho da puta, ouvindo pagode no celular.

Quem era? Jacaré!

Confesso, que nem estava tão alto ao ponto de todos os passageiros escutarem.
Só a galera que estava de camarote.
Basicamente no meu ouvido.

Olhei para ele de cara feia.

O maluco era da cor do banco, devia ter quase dois metros de altura e um braço do tamanho da minha perna.

Quando percebeu que eu estava olhando, me encarou.

Fiz o que qualquer homem macho faria...

Desviei o olhar para o outro lado e cantarolei o refrão:
- ...Sorria que eu estou te filmando...

Ia fazer o que?
Bater nele com meus bambolês?

Não tem um negócio que se a pessoa insistir em ouvir música no ônibus será retirado do local sob força policial?
Cadê?
Fiquei esperando adentrar pela janela uma equipe do Bope.
Mas nada.

Continuamos ouvindo o repertório:
“Advinha o que eu sinto por você...”

Ok, ok, ok...

A música só parou quando o celular dele tocou.
- “Alô!”

O que me chamou atenção foi que Jacaré atendeu mandando um alô meio diferente.
Não foi um “alô” muito firme, foi mais para um “aloan” escorregadio, saca.

- “Tudo beim, querido?”

Ok! Jacaré era homossexual, todo mundo percebeu.

Normal.

Ele baixou a voz, começou a sussurrar no telefone e ficou sensualizando durante todo engarrafamento.

De repente todos os sinais do meu corpo se voltam para o meu lado esquerdo.

A Pálida estava pressionando o seu corpo junto ao meu.

Ai meu deus...
A mão direita dela quase na minha coxa.

Eu sou um homem comprometido.

Me ajeitei no banco.

Ela encostou singelamente a cabeça no meu ombro e o decote se revelou.

Dalai Lama, Dalai Lama..

Não tenho mais idade para ser assediado em ônibus.

Mentalizei o azul.

Uma coroa com cara de areia mijada, que estava em pé na minha frente observava tudo.

Sutilmente, empurrei o corpo da menina para o outro lado.

Ela voltou feito um joão bobo furado.

Parecia estar dormindo, mas mantinha os olhos abertos!

O que que ela está querendo?

Deixei para lá. Fica aí!

Fechei os olhos e tentei cochilar novamente.

Jacaré voltou a nos deliciar com a música dos Travessos:
“Quando a gente ama eu sou um homem mais feliz...”

Puta que pariu.
Jacaré ainda por cima parecia apaixonado!

De repente o braço da Pálida caiu totalmente sobre minha coxa.
Não faça isso! Não faça isso!

Senti seus lábios raspando no meu braço, passando pelo meu cotovelo até que num movimento, quase ninfomaníaco,  ela caiu de boca no meu colo.

DESMAIADAAAAAAAAAAAAAAAAA!


- Moça! Moça! Moça!

A Coroa da minha frente se meteu e começou a sacudir a garota.
Jacaré também.

Eu confesso que fiquei meio sem ação.

Levantei e dei mais espaço para os dois agirem.

Mermão, Jacaré deu três tapas de jogador de vôlei na cara da Pálida que a bochecha dela corou igual a da Branca de Neve.
Ardeu em mim.

Só que a mulher estava mais para Bela Adormecida, malandro!

Desmaiada de olho aberto feito um zumbi.

Sinistro. 
Só falta essa mulher está morta.
Ninguém merece eu achar que ela estava me bulinando e a garota estar morta, né?

- “Está viva, está com pulso!”-

- Motorista! Motorista! Pára o ônibus!
Uma balburdia só.

A Coroa assumiu a situação e Jacaré, grande para caralho, levou a menina no colo para fora do ônibus igual super herói.

Ainda bem que ele estava ali, porque senão ia sobrar para mim.
Imagina eu sair com cinco bolsas, dez bambolês e uma mulher nos braços.

Na calçada, eles foram rodeados por aquelas famosas vinte pessoas que mais atrapalharam do que ajudam, sabe?

O motorista aproveitou para meter o pé.

E eu também.


NOTA: 
Estou escrevendo o livro e o blog juntos. 
Não reparem a bagunça.
Continuem divulgando para me ajudar.
Obrigado!

Angelo Morse
(O dono do C.U)