segunda-feira, 16 de abril de 2012

Olhos vermelhos




“De olhos vermelhos, de pêlos branquinhos...”


Não! Não era o coelhinho!


Era um afro descendente de uns seis metros de altura, forte para caralho, cheio de cachaça e cocaína na narina.


- “Quem é o gerente dessa merda?”


Esse era um dos raros momentos que os funcionários abriam um sorriso igual o gato da Alice:


- “É aquele ali!”


E apontaram para mim.


Eu já tinha trabalhado em várias boates, mas essa era um baile funk na periferia.


A cerveja era mais barata do que uma bala, as mulheres eram mais baratas do que a cerveja, bandidos achavam que eram polícia e a polícia achava que era Deus.


Tudo regado ao funk da pior qualidade:

“Chupa aqui, senta lá, chupa aqui senta lá...”


Mais ou menos isso.


Claro que não eram todos os freqüentadores que eram assim, mas a metade já era milhares.

E era muito mais da metade.

E não estou falando da galera pobre, não! A galera da zona sul era igual!

A mulambice não está na carteira da pessoa.
Esta na alma!

A boate era uma concentração bizarra e gigantesca de pessoas descontroladas.

Minha área de atuação era do lado de fora.

Geralmente onde os problemas ficavam maiores e mais perigosos.

A imagem da multidão saindo, parecia uma tsunami de lava de vulcão dos infernos.


E sempre tinha um com a necessidade de arrumar problema.


- “Você que é o gerente dessa merda?”


O bafo do negão mudou a cor dos meus olhos e do meu cabelo.


- Sim, pois não! O que posso ajudar?


Eu posso ser um gentleman também.


A ventania fazia o cara balançar de um lado para o outro.

Qual é o nome daquele vento famoso mesmo?
Lembrei: Álcool!


- “Roubaram meu carro e você vai pagar agora!”


Apontou o olho de Sauron para mim.


Mas eu também não metia o galho dentro, não! Sou macho!

(E claro, tinha 10 seguranças).


- Primeiro: Fale mais baixo por favor!

- Segundo: Onde o senhor estacionou o veículo?


O negão abriu os braços e dava uns cinco metros de envergadura.


O cordão de prata era tão grosso que dava para amarrar umas vinte motos.


Percebi que ele era todo tatuado.

(Tatuagem em pele muito escura, se não for de Liquid Paper ou florescente, dá um efeito meio sinistro, né?).


- “Vai tomar no cú, você não sabe onde eu parei meu carro?”


Tinham três seguranças perto que olharam para mim.


Eram eles: Tapa de ferro, Pit Bull e Sagat.

(Um dia eu falo sobre todos os dez seguranças, hoje não.)


Por muito menos aquele cara poderia ter tomado uma na orelha, mas nós somos seres civilizados ou não somos?


Olhei de volta para os seguranças e fiz que não com a cabeça.


Eu sou bom de papo.


Ia resolver na diplomacia.


- Meu senhor, olha o tamanho do estacionamento! São centenas de carros. Não dá para eu saber qual carro é de quem, concorda?

- “Mas o meu estava estacionado bem aqui, porra!”


Apontou para um espaço vazio.


- Cadê a chave senhor?

- “Está aqui na minha mão!”

- É mais difícil roubar um carro sem as chaves, não acha?

- “Tá me chamando de mentiroso, seu babaca?”


Tapa de Ferro chegou mais perto fazendo cara feia.

(Eu já vi um magrinho abusado voar por cima de nove carros com um sopro do Tapa de Ferro, acredite se quiser!).


- Não estou lhe chamando de mentiroso, mas é possível que o carro não tenha sido roubado. Qual é o carro?

- “Um Chevette preto, placa JJJ 8483!”


Peguei o rádio:

- Alguém perto de um Chevette preto, placa JJJ 8483?

- “Tá aqui gerente!”


Do outro lado do estacionamento. O lugar era enorme!


- Viu? O senhor está enganado, apenas estacionou do outro lado!

- “Estacionei porra nenhuma! Alguém tirou daqui e levou para lá!”

- Pode ser...Deve ter sido o Yeti que mora ali atrás.

- “O que?”

- Nada não, vamos lá pegar o seu carro.


Botamos o sujeito dentro do carro, mas ele nem agradeceu. Óbvio!


- Vá com Deus!

(Como se algum ser divino fosse entrar naquele carro maldito!)


Eu até hoje não sei como tanto carro conseguia sair ao mesmo tempo, pelo mesmo lugar, com tanta gente alcoolizada dirigindo.


Pela proporção, até que quase nunca tinha batida.


Mas às vezes...

- BUM!


Viramos de costa e vimos que era o Chevette do negão.


Quando ele abriu a porta e estava com dez metros de altura.

Muuuuuito puto!


Transtornado.


- “Filho da puuuuta! Como que você me dá uma ré dessas?!”


A gente não viu quem tinha errado, só vimos a traseira de um Honda agarrada na outrora frente do Chevette preto.


O negão deu três marteladas no caput do Honda.


BUM, BUM, BUM


- “Responde seu babaca!”


Aí eu chamei todos os dez seguranças pelo rádio.


Senão o cara do Honda, certo ou errado ia morrer.


Tanto que ele nem saiu do carro.


E o negão, feito um tocador de pandeiro de mármore, batia com a mão aberta que mais parecia uma pá de lixo, no caput :


PUM, PUM, PUM!


- Como é que você me dá uma ré dessas filho da puta!”

- “Sai daí de dentro, seu viado!”

- “Eu vou te matar desgraçado!”


Praticamente um monstro de vinte andares esmagando Tóquio.


Eu vi sair um maribondo da boca do maluco.

Juro!


Tive que intervir.


- ÔôôôÔ! Meu amigo! Calminha aí! Acidentes acontecem!

- “Calma aí é o caralho! Acidente porra nenhuma! Você viu a ré que esse filho da puta deu para cima do meu carro?”


Ele se escorou em outro carro para não cair.


Olhei para Tapa de ferro, que chegou junto dele.

Pit Bull e Sagat também fizeram a contenção.


- Amigão! Deixa o cara sair do carro para gente resolver isso da melhor forma possível. Violência não resolve nada.

- “Foda-se!”


(A maravilha de um diálogo educado e um argumento coeso!)


O insulfilm do Honda era muito escuro, não deixava a gente enxergar nada.

Nem sabíamos se o motorista era homem, mulher, flor ou fruta.


Eu só sabia de uma coisa.

Quem fosse que estivesse lá dentro, já estava todo cagado!


Quando eu meto a cara e a lanterna no vidro...


Que surpresa...


Advinha?


Não tinha ninguém dentro do carroooooooooo!


Eu ainda procurei para ver se o cara estava embaixo do banco.

Mas não, não tinha ninguém mesmo!


Geralmente eu sou calmo...

Mentalizo o azul.


Mas às vezes... Quando o vermelho sangue prevalece...


Arregalo os olhos, nascem garras, caninos, chifres e nasce uma asa de morcego nas minhas costas.

Sim, eu viro um gárgula!


Voei em cima do babaca e o agarrei pelo pescoço.


Tapa de Ferro até estranhou.


- Olha aqui!


Colei a cara dele no vidro.


 Você está vendo alguém dentro do carro?


- “Ué?”


- Você fez esse escarcéu todo, deu chilique igual a Vera Verão, está me aporrinhando há mais de uma hora e destruiu um carro parado, seu filho da puta!


- “ Po, po, po...”


Você bate num carro estacionado e ainda diz que ele deu ré?


Ele já não era mais tão grande assim.


- Po, po, po, porra nenhuma!


Acabou a diplomacia.


Dei um esporro e ele, bebum bolado, aceitou.


Meia hora depois, chega o dono do Honda...


Meu amigo! Desculpa o acidente, mas o senhor ali está disposto a pagar pelo conserto.


Quando o maluco viu o tamanho do cara que tinha batido no carro dele:


- “Não, não, não precisa não!...Eu tenho seguro, valeu mesmo!”


E meteu o pé!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Eu já fui gay



Logo na esquina de casa ganhei um beijo na boca de um mendigo.
SMACK!

- Porra!

Na verdade não era bem um mendigo, era um rapaz com deficiência intelectual que vivia nas ruas.
Fazia isso com os transeuntes, influenciado pelos outros na calçada que riam.

- Porra!

Dei uma risadinha sem graça e uma cuspida na árvore.

Nada iria diminuir o meu humor.
Eu tinha um encontro.

E ela tinha dezessete anos a mais do que eu.

Era quarentona!
Idade da loba...
A mulher fareja você de longe.

Uma coisa boa, é que nessa idade a mulher já ouviu tanta baboseira de homem na vida, que prefere ir logo para os finalmente.

Eu tenho vários defeitos, mas em um quesito em dou banho.
Também falo baboseiras, claro!
Mas pelo menos são baboseiras engraçadas.

E mulher meu amigo, a gente fisga pelo sorriso!

Ela me adorava.

Não é para me gabar naõ, mas Saca a propaganda no jornal:
Garoto novo com tesão de três pelicanos, sabe conversar, é muito bem humorado e sensível.

Boa!

E para fechar a conversa, a mulher era viúva.
Congela

Por algum motivo ainda não explicado pela ciência, toda viúva, fica automaticamente mais bonita.
Eu sei que é escroto falar isso.
Mas é verdade.
Pode reparar.
Parece teoria Nelsonrodriguiana.
Pode até ser.

Resumindo: A viúva era uma uva!
Estilo Angela Vieira.

Eu estava felizão.
Andando com trilha sonora e o caralho.


O finado era da marinha, tinha deixado aquela pensão maneira.
A mulher ainda por cima tinha dinheiro.
Eu não ligo quando outra pessoa paga a conta.

Mas claro!  Essa história é minha, então tem sempre um detalhezinho.
A coroa namorava um tenente da PM.

Não vou falar o nome do cara porque ele era meio conhecido.
Conhecido por matar as pessoas.

O desgraçado tinha uma imagem do Exu Caveira no quintal de casa.

Foda, né?

Mas tudo bem, continuando...

Fomos almoçar e depois ela pediu para me colocar na quentinha.
Queria me comer de sobremesa.

Chegamos à casa dela, a mulher veio logo sensualizando...
Cheia de amor...
E foi tudo perfeito.

Eu estava no banho quando o telefone toca.
- TRIMMMMMMMMMMMMMMMMMM

A mulher atendeu.
- “Oi coração! Que surpresa boa...”

Três minutos ela bate na porta do banheiro desesperada.

- BUM, BUM, BUM, BUM, BUM!

- Oi!?
- Angelo, meu namorado está aqui no bar comprando cerveja e vindo para cá.

- FUDEUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!

O bar era ao lado do prédio dela.
O cara já devia estar pegando o elevador.

- Puta que pariu, puta que pariu...

- “Angelo, pelo amor de Deus, se ele pegar a gente, mata nós dois!”

Isso é o tipo de frase que faz você vestir as calças em dois segundos.

Olhei para janela.
Décimo primeiro andar, não sei voar.

Embaixo da cama.
Cheio de entulho.

Dentro do armário.
Se fosse um local seguro não teria tanta piada.

Dentro do freezer.
Muito frio.

Sair correndo pela escada.
O cara podia estar chegando no corredor a qualquer momento.

- Puta que pariu, puta que pariu...

Se esconder ou fugir não eram mais opções.

Fechei os olhos e bati os calcanhares igual Dorothy, do mágico de Oz.
Mas meu sapato não era vermelho. Não funcionou.

Fudeu, vou morrer!

No instinto de sobrevivência veio a luz.

Minha mãe fazia teatro e por conta disso minha casa era cheio de gays.

Fui criado com gays.
Pelo cheiro eu sei se o cara é gay.
E também sabia imitá-los.

- Me dá uma tesoura!

(Pistola versus tesoura)

- “Angelo...”

A mulher estava de cabelo molhado inclusive.
Joguei a toalha nas costas dela e botei um arco na cabeça.

- Eu sou o seu cabelereiro! Eu sou o seu cabelereiro!

Dei um nó na frente da minha camisa e comecei a cortar o cabelo dela.
Picotando as pontas de verdade.

O cara abriu a porta.
Era a cara do Coronel Trautman do Rambo, lembra?

- “Olá!”

Olhou com aquela cara de polícia para situação.

Frio na espinha, engoli a seco.

(Agora atua, atua para não morrer filho da puta!)

A mulher deveria ter sido atriz.

- “Oi coração! Que saudade!”

Deu o maior beijo apaixonado no maluco.

Eu paralisei a mão esquerda que estava tremendo, com o olhar.

Ela nos apresentou de longe:
- “Trautman, Angelo, Angelo Trautman.”

Dei aquele oi de bicha, virando a cabeça:
- Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Conheço o dialeto gay como nenhum outro hétero.

- Mona!  Você não disse que o bofe era bonitão assim!

Bem afetado.

- “Hahahaha”

Ele riu.

Quando ele riu, eu respirei fundo como quem acerta na loteria.

- “Trouxe cerveja!”
- “Oba!”
-“Vocês querem?”

O cara era maneiro.

- Eu aceito!

O polícia foi para cozinha.
Deixou a pochete preta em cima do sofá.

Engoli seco, mas continuei.

- Mona, vem cá que para gente acabar logo!
A mulher arregalou o olho e abriu a boca em silêncio.

Tipo:
- “Caralho...Ele caiu!”

Fingir que é cabelereiro é fácil.
Cresci vendo-os cortando o cabelo da minha mãe.
Você pega o chumaço de cabelo com dois dedos e corta ponta.

Cortei com cuidado para não destruir o cabelo da mulher.

Fazia mais barulho com a tesoura do que qualquer coisa.

Brinquei:
- Vamos deixar ele Chanel!?

A mulher olhou para minha cara assim, apertando os olhos...
- “Não viado, tá bom!”

Volta o cara com três copos cheios na mão:

- “Você ia ficar bem de cabelo curto!”
- Cansei de falar isso para ela!

Eu sei que a história ia ficar boa se eu tivesse tosado o cabelo da mulher.

Estava tão confiante que até podia ter dado uma sacaneada.

Mas para que, né?

- Na próxima a gente corta!
- “Não tenho coragem!”

Ela tinha o maior cabelão mesmo.

Sacudi o cabelo dela assim com a mão pra disfarçar.
Dei uma ajeitada.

Homem não repara em cabelo de mulher.
E cabelo molhado é tudo a mesma coisa.

Ela jogou a cabeça para o dois lados igual propaganda de Shampoo.

- “Você num tinha plantão hoje amor?”
- “Troquei.”
- Aé, você é PM, né?

Mostrei interesse.

Peguei o copo e sentei no sofá de pernas cruzadas com a outra mão no joelho.
A tesoura do meu lado.

- “Papa Mike não, porque eu não bato continência para ninguém, sou Papa Charlie.

Falou meio puto.

(É assim que eles se chamam e parece que rola uma rixa.)

Batemos papo durante meia hora.

- Gente vou embora, vou deixar vocês dois aí namorando.

- “Porra, tá cedo, tem mais cerveja aí!”

(O bofe gostou de mim!)

- “Fica mais um pouco, bicha!”

(Mulher é um ser satânico mesmo, né?)

- Não, não,  eu ainda vou sair mais tarde, e já estou morta!

Dei dois beijinhos na mulher e dois beijinhos no cara.

(Sim!)

- “Quando que a gente se vê?”

A filha da puta estava curtindo aquilo tudo.

(Eu sou da época que as pessoas marcavam encontro nos encontros.
Não existia celular.)

- “Porra, vou fazer um churrasco semana que vem aparece aí!”

O cara era maneiro.

- Venho sim!
- “Tchau!”

Estou com a mão na maçaneta o maluco me chama:
- “Ou!”

Puta que pariu...

Virei para trás bem gay, girando só o pescoço sem virar o corpo.

- “Essa carteira é sua?”

(Eu sempre esqueço alguma coisa nos lugares.)

A carteira era do meu time.
Dentro tinha um calendário de mulher pelada.
Se ele abre...

- Ih, que cabeça!”

Ele jogou para mim.

- “Nunca vi bicha gostar de futebol.”

- Vinte dois homens de short correndo atrás de uma bola?

E dei uma risada forçada.

No elevador eu fechei os olhos e comecei a agradecer a Deus.
Quase chorei.

O coração:
Tum Tum, Tum Tum, Tum Tum, Tum Tum...

Quando chegou ao térreo.

A cara do porteiro desesperado dizia tudo.

Ele viu chegar um homem com a mulher do 1103.
Mas viu sair uma bichona com nó na camisa e arco na cabeça.

Pisquei para ele e fui embora.

Essa foi por pouco.

(Aproveito o rodapé para dizer que sou totalmente contra a discriminação contra gays. E a sociedade é homofóbica sim!)



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sonho do futuro




Tive um sonho...

11 de Abril de 2021

- “Pai! Quantos jatos você solta quando ejacula?”

Engasguei-me com o pão:
“ Bruftgcofcof!”

- “Porque em média, são sete jatos, mas dependendo da intensidade do orgasmo e da quantidade de sêmen a ser eliminada, pode chegar a dez!”.
- Filha! Eu estou comendo!
- “Que que tem?”
- Você acha que isso é assunto para o café da manhã? Vai ler um livro!
- “Pai, eu sou culta, eu leio o Google!”.

Ela continuou lendo.
A tela do celular está projetada sobre metade mesa inteira.
É Touch Screen.

- “Olha só! Segundo o site, Isso ocorre porque durante o orgasmo, os músculos pélvicos contraem-se repetidamente por meio de estímulos nervosos, liberando o esperma que fica na saída da uretra!”
- Nossa, que interessante!
- “Vou mostrar o vídeo!”.
- NÃO!
- “Vocês são engraçados, vivem dizendo que eu nunca converso pessoalmente, quando eu tento, reclamam”.
- Não estou reclamando, só não quero ver nenhuma ejaculação, caramba!
- “Então responde a minha pergunta.”
- Sei lá, pergunta para sua mãe!
- “Não me mete nesse papo, não! Ela está falando com você!”.
- Não a tenho mínima ideia. Papo mais sem sentido!
- “Aqui diz que no orgasmo, um homem pode ejacular de dois a cinco ml, o equivalente a uma colher de chá.

Larguei a xícara de leite e enchi um copo com suco.

- É pedir demais, a gente falar sobre outra coisa?
- “Só estava puxando assunto, eu hein!”

Como num passo de mágica, minimizou a projeção da tela, e voltou a ler em silêncio.

A imagem da minha mulher projetada da parede pelo tablet:
- “Amor, amanhã eu chego para o almoço, vou programar a comida para sair duas horas, tudo bem?”
- Tudo bem!
- “Deixa eu desligar que já estou atrasada, beijos!”
- “Mãe! Mãe! Mãe...”
- “Oi filha!”
- “Posso trazer meus lovers para o almoço?”
- “Por mim...Mas resolve com o seu pai aí. Beijos, beijos, bye!”

Desligou.

- “Pai...”
- Não!
- “Poxa, a gente já conversou sobre isso”.
- A gente conversou não, você me mandou uma mensagem pelo facebook.
- “Então!?”
- Então, que eu sou contra! Acho que você tem que escolher entre ele ou ela. Não dá para namorar os dois ao mesmo tempo!
- “Por que não?
- Filha, eu entendo. Você é adolescente, nessa idade agente quer transgredir, quer experimentar, mas mesmo assim...
- “Pai, abre a mente! O lance é pluralidade!”.
- Não dá para namorar duas pessoas ao mesmo tempo!
- “Claro que dá pai! Eu faço tudo ao mesmo tempo!”
- Vai chegar uma hora, que um de vocês vai sair machucado.
- “E daí?”
- Não há como dar certo um relacionamento a três!
- “Como os relacionamentos a dois dessem certo!”.
- Filha...
- “Daddy! Os tempos mudaram! Minha geração é plural!”

Ela maximiza a tela projetada na mesa do café da manhã, abre uma janelinha e arrasta com o indicador até a minha frente.

Eu tenho que tirar o copo de suco da frente para ler melhor.

Vejo que é um artigo da escritora e “sexóloga” Sandy.
Intitulado:
“Threesome”

- “Só lê! Depois a gente conversa novamente, pode ser?”.
- Desde quando a Sandy...
- Por favor!  Daddy, Daddy, Daddy!

Pegou o celular de cima da mesa, apontou para mim e me lançou um holograma verde em forma de beijo.
“SMACK!”

- “Indo!”
- Filha! Come uma pêra pelo menos!

Joguei para ela, mas o Jobs pulou na frente e pegou com a boca.
É o cãozinho android dela. Da Google!
“Fruto da pereira, com polpa branca, sumarenta e doce, arredondado na base e mais estreito na outra extremidade. Nível de toxinas: 78%”

(Eu finjo que não, mas até que acho bonitinho!)

- LEVA  O PROTETOR!

Já foi.

Volto os olhos para o artigo, mas a manchete ao lado me chama mais atenção:

“Romário deve ganhar eleição para presidente logo no primeiro turno.”

E logo embaixo:

Oscar Niemeyer inaugura chafariz flutuante para conter calor.

- Impressionante!

Acordei suado.

domingo, 8 de abril de 2012

O Capeta


Recebi milhares de reclamações (3) por não ter postado nem sexta nem ontem.
Desculpa, estava ocupado.
Vou postar uma hoje e outra na terça.
Depois eu vou acertando.

Vou contar uma rápida então..

Eu tenho duas sogras já contei isso?

(Botar o título de: "O Capeta" e começar falando da sogra é sacanagem).

Mas não é nada disso, as duas são ótimas!
Uma delas produz uma festa de Halloween, digna do Oscar.
E eu, como artista plástico enrustido, ajudo na decoração.
Já fiz uma aranha de três metros, um morcego de quatro, uma caveira de seis...
A gente viaja na criatividade e a festa é fodástica!
Qualquer dia eu falo mais dessa minha sogra se ela permitir.

(Ela não gosta muito que eu revele que ela é feiticeira de verdade).

Na última festa de Halloween eu caprichei na maquiagem.
Fiz uma no estilo Paulo Barros. Para ganhar!
Saca só...


Mas cismei que faltava uma crânio na mão pra compor o personagem.
Fui procurar em lojas especializadas. 
Nas lojas de rock custava cem reais...
- Pohan!

- “Sabe onde você vai achar isso, amigo? Em loja de macumba!”

Eu não tenho religião e nem acredito.
Se eu fosse mendigo comeria esses trabalhos que colocam na encruzilhada.
Pensando bem, todo mendigo deve comer, né?
Cheio de fome, acorda tem um prato de frango, farofa, canjica e cachaça.
Hummmmmm...Deu até água na boca!

Enfim...

O que eu quero dizer, é que loja de macumba para mim, é uma loja normal.

- Bom dia, o senhor tem cabeça de caveira aí?

(Tá bom, não é uma pergunta muito normal...)

- “Tem sim! Lá atrás depois da Pombagira!"

(Nem a resposta.)

Isso era lá no fim da loja, era meio escuro, mas achei as cabeças das caveiras.

Advinham onde é que elas estavam?

No pé do Capeta.
Quer dizer, no pé de uma imagem de gesso do Capeta.
Em tamanho real.

Para ser sincero, eu não se é do tamanho real porque nunca vi o capeta, mas a estátua era um pouco maior que eu.
Tinha uns dois metros.
Ele segurava um tridente, tinha capa, cartola e o fogo subia pelas pernas.
Sinistro.

Eu fui criado com o catolicismo, o Diabo é o Diabo, né?
- Cruz Credo!
Quase me benzi.

Mas aí, eu ri da situação, balancei a cabeça e parei de bobeira.

Me abaixei para pegar a caveira...

Mermão...

Mermão...

Mermão...

Me sai a porra de um gato por trás das caveiras!

- MIAU!

Não foi bem miau não, ele fez aquela coisa de gato quando ataca, saca?

Gato é foda!

Não se fazer a onomatopéia!

So sei que tomei um susto da porra!

Dei um pulo para trás e joguei, sem querer, um atabaque no chão.

Sabe o que é atabaque?
Imagina a esporreira de um atabaque gigante caindo no chão.

- “BRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!”

(Mas ou menos assim)

Não satisfeito, ao tentar segurar o atabaque eu esbarrei na tal Pombagira de gesso.

Era só o busto mas custava duzentos e cinqüenta reais.

Abracei a imagem no susto e a peguei quase caindo. 
Estilo Matrix!
Ufa! Salvei.

Congela.

Saca a cena:
Eu apavorado, abraçado com a estátua da mulher, com a cara nos peitos dela.
E todo mundo olhando para mim.

Na hora, nervoso, pedi até dá licença para entidade.

Ou seja, causei o caos na porra da lojinha!

O dono veio se arrastando:

- “O que está acontecendo aí meu filho?”
- Porra, o gato me deu um susto!
- “Esse gato é maluco mesmo!”

Deu um chute no bicho.

- “E aí, vai levar a caveirinha? É trezes pratas!”

- Não, não...

- “Então leva o cajado do Tranca Rua, menino! Está na promoção!”

O cajado era maneiro...A cabeça acendia e piscava em vermelho.

- Não, não, quero não!

Fui saindo meio puto e meio sem graça com a situação.

Olhei para trás e só aí percebi um sorrisinho maroto na imagem do Capeta.

- Um a zero para você Mefistófeles!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Teatro dos vampiros



A noite tinha tudo para ser perfeita.

Estávamos indo prestigiar um espetáculo que um amigo nosso produziu. 
(Não sou Barbara Heliodora mas a peça era ótima!)

Confesso que eu tinha bebido o dia inteiro e já estava andando no estilo mestre-sala, saca?
Mas estava tranquilo.
Como sou uma pessoa muito consciente e a multa da lei seca é de mil reais:
Deixei a mulher dirigir.

Éramos eu, minha mulher e minha cunhada.
(Que já virou estrelinha no céu como diz minha filha!)

Ao pararmos na frente do Teatro da Glória, um flanelinha surge igual o Mestre dos Magos.
- “Dez reais para estacionar, senhora!”

- “E Angelo, tem trocado aí? Só tenho uma nota de cem e uma de cinco.”
- Diz ao flanelinha que você vai deixar cinco reais e na volta dá o resto.
- “Não! Não! É dez reais antecipado, madame!”
- “Mas é que eu não tenho trocado, moço...”
- “O preço é dez!”

Mermão, o flanelinha era abusado!
Se flanelinha abusado é pleonasmo, esse era um cacófato!

Minha mulher já foi seqüestrada por um flanelinha uma vez, então ela tem pavor de discutir com essa raça.
Por conta disso eu estava me segurando...Me segurando...
Mas a insistência do cara foi me dando uma raiva...
A cerveja começou a fermentar dentro de mim...

Eu estava no banco de trás do carro e abri o vidro:
- Mermão! A mulher disse que só tem cinco reais e acabou!
- “Amor...”
- Segura essa merda aí e na volta você pega o resto!

Olha o disparate que o cara falou para mim:
- “Ô cumpadi, meu assunto é com a motorista, não é com o carona não!”

Congela !

Trás o Mahatma Gandhi aqui e bota no meu lugar que eu quero ver o que ele faria.
Não dá não?
Bom, então continua comigo mesmo!

Brother...Quando o merdinha falou esse desaforo na minha cara...


Saí do carro possuído pelo demônio e babando chopp.
Estava com sete cabeças igual ao Doutor Lao.

- Como é que é seu filho da puta!?
- “É isso mesmo otário!”

Parti para cima do cretino.

Daí para frente, foram pontapés e palavras de baixo calão.

Tá, eu sei.
Um homem de classe como eu, não deveria ter descido a tal nível.
Ainda mais em frente ao Teatro da Glória lotado.
E ainda mais com duas mulheres no carro.
E ainda mais que uma era paraplégica.

Não dei nenhum dinheiro para o babaca, óbvio, e ele meteu o pé.

Voltei como quem saiu para jogar o lixo fora, mas ao olhar para a cara da minha mulher, percebi que era melhor ter dado os cem reais para o flanelinha.

- “Você sabe o que eu já passei numa situação como essa...”

E eu quieto tirando a cadeira de roda do carro.

- “Quando a gente voltar para buscar o carro, você acha que vai acontecer o que?”

Continuei montando a cadeira.

Agora quem estava gritando na frente do teatro ela era.

( "Ô família barraqueira!" Devem ter pensado quem estava na fila.)

- “O que você fez, foi uma falta de respeito comigo...”

Peguei minha cunhada no colo e botei na cadeira de rodas.

- “Sabe de uma coisa, cansei de você!”
Entrou no carro, bateu a porta cheia de ódio e foi embora cantando pneu.

Esqueceu a irmã.

Minha cunhada:
- “Vocês só faz merda hein! E agora?

Após uma ligação telefônica digna de divórcio, resolvi:
- Vamos assistir a peça!

E foi divertidíssimo! Deu até para relaxar.
No final, ainda fomos comemorar com o elenco.

Já estava fudido mesmo!

Enchemos a cara de cerveja, caipirinha e ficamos de pileque os dois.

No táxi de volta para casa...

- “Você é o cunhado que eu mais amo sabia?”
- Sabia...(Mentira!)
- Me faz um favor? Só unzinho...?
- Fala.
- Eu queria dançar, me leva numa boate?
- Essa hora?

A boate que ela queria ir, era uma Ultramegasupergay, em Ipanema.

- Ah não! Boate gay!?
- Porfavor.................................................................................

Sabe aquela carinha do gato do Shrek? Ela sabia fazer igualzinho.

- “É que desde do acidente que eu não vou numa boate.”

Apelou!

- Toca pára a boate gay, taxista!

Já estava fudido mesmo!

- Ó, mais lá você me protege hein!
- “Lá não é assim não garoto, é boate normal!”

Sei.

Chegamos à boate
Entrada: Mulher era caro para caralho e homem de graça!
Que excêntrico!

Claro que não dava para entrar com a cadeira de roda.
Na verdade, não dá para entrar com cadeira de roda em lugar nenhum, diga-se de passagem!
- Fica aí que eu vou lá dentro buscar algum macho para ajudar!
(Ué?)

Mermão, quando abri a porta de 100 metros de altura...
Me arrependi na hora.
Sabe boate gay quando enche de mulher para zoar?
Quando a Vera Fisher resolve dançar nua em cima da mesa?

Então, NÃO era esse dia!

Só tinha fumaça e homem.
Sauna.

Tinha homem para caralho no lugar!
Para todos os gostos: Cowboys, marinheiros, altos, bigodudos, travestis...

E eu procurando um para me ajudar, como quem caça um namorado.

Por cagada, achei um amigo nosso, Xela.
Bati no ombro da bicha, quando ela olhou para trás e me viu:
- “Cruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuzzzzz credo..!

Começou a se benzer.

- “...O que você está fazendo aqui Jan Jan?”

Ele me chama de Jan Jan.

Resumindo: Trouxemos minha cunhada, amiga dele inclusive.

Eu não sei o que todo mundo do lugar estava usando.
Sei que estava todo mundo muito doido.
O namorado desse meu amigo, ficava passando embaixo da minha perna  o tempo todo, igual um macaco.
Pegava no meu cabelo e dizia:
- “Você é trilhardário e não sabe!”
E saía rindo...

Tinha um cara que ficava me encarando feito a Tina Turner em Mad Max.

E o pior era o banheiro da porra da boate ficava no meio da pista de dança.

Banheiro de boate gay é foda!
Literalmente.

Minha cunhada, bêbada, estava se divertindo como nunca, então eu relaxei.
Foi só aí que eu lembrei de uma coisa importantíssima...

- Menina, você não tem que fazer xixi?
- “Tinha, há seis horas atrás!”

Quando a bexiga dela enchia, ela passava mal e quase morria.

- Mas você está bem?
- “Tô ótima!”

Já estava fudido mesmo!

- Garçom, me vê mais um então!

Sei lá que horas, esse nosso amigo doido, resolveu que íamos ficar com ele pelo Rio de Janeiro:
- “Vocês dormem aqui em casa, Jan Jan!"

- De jeito nenhum Xela! Essa brincadeira já vai dar uma merda da porra para mim! Eu nem sei se ainda estou casado, vou embora para casa!

Peguei minha cunhada pela roda e fomos embora.

Quando abri a porta de 200 metros...

A luz que entrava, foi evaporando bicha por bicha...
Descobri como um vampiro se sente ao amanhecer.

Com muita dificuldade, entre a luz do dia que entrava e a fumaça escura que saía, identifiquei um espectro conhecido...

Parada na porta da boate, encostada num táxi, estava a enfermeira da minha cunhada.
A menina com os olhos arregalados nunca tinha visto tanta gente louca e estranha saindo de um lugar só ao mesmo tempo.

Na hora meu cérebro entrou em colapso.
- Porra, essa merda é teletransporte também? Você chamou sua enfermeira?
- “Eu não!”

Aí vem Xela com a cara mais tranqüila do mundo:
- “Fui eu! Liguei para sua casa, falei com sua esposa, expliquei a situação e pedi para ela mandar a enfermeira para gente ficar mais tranqüilo.

Puta que pariu..

- Xela, agora você destruiu qualquer chance do meu casamento sobreviver.

Como nem eu nem minha cunhada queríamos dormir lá, voltamos no mesmo táxi.
Bolados.

- “Agora você me salva com sua irmã, maluca!”

De nervoso, nós dois mijamos nas calças.

Minha mulher ficou uma semana sem falar comigo.