sexta-feira, 9 de março de 2012

A Garota Rotweiller


Eu era vendedor de purificadores de água.

Vendia de porta em porta. Não existe isso mais não, existe?

Vendedor de enciclopédia? Vendedor de Yakult? Plano de saúde?

Existem algumas manhas nessa profissão.

Regra1 : O morador da casa não pode achar que você é vendedor nem testemunha de Jeová.

Senão já manda de longe:
- “Quero não!”

Então a gente batia palma:
- Pla, pla, pla...(Palmas)
- Nós somos do sistema....mngnerngenefnerenfee...de água!

De longe pessoa só escutava “SISTEMA”...e ÁGUA.

Todos vinham até a porta, claro!

Regra 2: Nunca converse na porta da casa.

Você tem que entrar na casa da pessoa.
Para isso, é preciso ganhar a confiança.

Eu tinha um formulário com perguntas sobre a água do lugar.
Os moradores metiam o malho:
- “A água aqui é uma merda! Não cai nunca! É suja para caramba!
- “Entra menino, vou te servir um café...”

Deixou entrar fudeu.

Era só começar a mostrar os aparelhos de “última geração” que a mulherada ficava louca.

Mulher era sempre melhor para vender.

A maioria dos homens está cagando e andando se água dele é suja.

Desde que não tenha um rato morto no filtro de barro...

Nunca mais me esqueço, o nome dessa senhora: Jorgeane.

Uma senhora arrumada.

Coroa gostosa...Estilo Nelson Rodrigues, saca?

Me atendeu de pijaminha, sem sutiã.

Com18 anos eu tinha um tesão de 14 gorilas no cio.

E Dona Jorgeane era simpática toda a vida. Os mamilos idem.

Tarado é um homem normal pego em flagrante.

Mas toda fantasia acabou quando ela me apresentou a filha.

- “Essa é minha filha!”
- “Graziela, deixa o rapaz sentar!”

Radiografei a ditacuja:

12 anos, um pouco acima do peso, alta e com alguma deficiência intelectual.

Rolava um: Dãããã...Sabe?

- "Sr Angelo, vai escrever isso mesmo?"
- O que Minichico?
- "Esse Dããã?" Desculpe! Mas é um comentário inapropriado.
- Tá certo, esqueçam o dããã, por favor.

Continuando:

- Pode deixar ela aí, eu sento aqui do lado.

Regra 3: Seja simpático ao extremo.

- Tudo bom Graziela?

Graziela gente, era um pouco vesga, mas reparei que ela não desviava os olhos de mim.
Arregalados assim.

Apaixonada.
Dava para ver os coraçõezinhos.

- Lindinha! Mas então Dona Jorgeane, nossos aparelhos...

Maluco...um labrador pulou de trás do sofá, e passou por cima de mim, igual o super cão.
- Hulf!...(Deu para entender que é o latido do cachorro, né?)

Era bonitão, forte, com pêlo branco.

Eu acho lindo cachorro de comercial, correndo pela grama.
Mas odeio cachorro pulando em cima de mim.

E Salut, claro, como todo cão que se preze, sabia disso.

Começou a pular.

- “Salut, quieto!”

Após cinco minutos, a porra do cachorro parou e ficou encarando.

Salut de um lado e Graziela do outro.

Ambos com a língua para fora.

- A senhora gostou de qual, Dona Jorgeane?

Regra 4: Repita o nome do cliente várias vezes para gravar. Vendedor que esquece o nome do cliente perde a venda.

- “Adorei esse aqui Angelo!”

Graziela, mais perto do que eu gostaria, começou a brincar com minha gravata.

Tinha a estampa do Snoopy.  Meiga.

- “Larga a gravata do moço, menina”

- Deixa ela!

Joguei a gravata para trás, Grazi estava no meu cangote, e dei um sorriso falso.

- Então, boa escolha, pois esse aparelho é ótimo! Ele filtra, ioniza, esteriliza...

Dona Jorgeane tinha gostado do Water Special Ecologic Ice Line.

Repete você que está lendo:
Water Special Ecologic Ice Line.

Puta que pariu! Nome bonito da porra.

Era de água gelada, o mais caro.
- “Comissão boazona, Mané!” Diria meu ex parceiro de venda.

(Outro dia conto a história dele).

Estava tudo certo, Dona Jorgeane assinando os cheques para dividir em cinco vezes.

Porque além de entrar na casa da pessoa e ganhar a confiança dela, você tinha que sair de lá com o dinheiro dela sem entregar porra nenhuma.

Na pura confiança. Haja papo.

De repente um puxão no pescoço.

- Vul!  (Eu não estou muito bem nas onomatopéias hoje, eu sei)

O estrupício da garota estava com 70% da gravata dentro da boca.

- Ops! Graziela...

Fui tirar a gravata da boca da maldita, mas ela travou a mandíbula.

Igual um cachorro.

- “Graziela solta a gravata do moço agora!”

Mas Graziela Rottweiler não ia soltar nem com trovoada.

E eu puxando com força:
- Solta amorzinho...
E ela foi comendo mais ainda, rindo, com o dente cerrado.
Saca a demônia?

Eu me levantei, a pasta caiu, os papéis da venda voaram.

Salut nervoso começou a latir.
Tava vendo a hora que ele ia me morder.

E Dona Jorgeane beliscando a menina possuída.

Antigamente eu era viciado num chocolate que vinha uns cartões, com umas figuras de bichos lembram disso?
Qual era o nome mesmo...?
Lembrei: Chocolate Surpresa da Nestlé.

Atrás vinha escrito algumas curiosidades sobre os bichos.
Lembro de ter lido que o ponto fraco dos bichos selvagens é sempre um: Os ollhos.
Se você estiver com um crocodilo mordendo sua perna. Enfia o dedo nos olhos dele.
Fica a dica.

Não, eu não enfiei o dedo no olho da menina.

Mas apertei a bochecha. Um pouquinho forte.

Ela parou de rir e começou a chorar.
Mas soltou.

A gravata estava toda babada, nojenta, pingando, o Snoopy...

Dona Jorgeane, morrendo de vergonha, enxugou com pano de prato.

Você que está lendo comprou algum purificador de água de mim?
Nem ela!
Perdi a gravata e a venda.

Quando estava indo embora, Salut, parado no portão, me olhava assim como quem diz:

- “He he he!”   

Igual Mutley, o cachorro do Dick Vigarista.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Minha namorada macumbeira



Nunca na minha vida consegui vencer uma partida do WAR.

Mas teve uma vez que eu ia ganhar.

Após três horas de jogo, cheio de estratégia...

Sempre gostei de jogar com o exército preto.

Gosto da cor preta.

E dessa vez, finalmente eu ia vencer, só estava esperando minha vez de jogar.
Joguei os dados, mas nem precisava do resultado.
Ia ganhar.

De repente minha namorada pega o tabuleiro e joga tudo pra cima.

Foi pecinha pra todo o que era lado.

Caralho!

Lembra das pecinhas do WAR?

Após alguns segundo enfartando, olhei para louca:

-Tá maluca Luciana?
- “Meu nome não é Luciana!”

E começou a rir sinistramente.

Luciana dizia que era espiritualizada.

Leia-se macumbeira.

Eu não tenho religião, mas também não tenho nada contra a religião dos outros.
Até tenho, mas não vem ao caso.

Nem vou levantar aqui questões sobre o que é ou o que não é verdade.
Para a história não faz menor diferença.
E além do mais, eu sei lá o que é verdade!
Alguém sabe?

Eu só tenho duas questões, simples:

Eu não quero falar com gente morta!
Eu não quero que gente morta fale comigo.

- Ah! Você não é Luciana, não? Você é quem, então?
- “Você sabe quem sou eu, Perna de calça.”

Perna de calça?

E a mulher começou a correr pela casa.

Olha a minha cara de caça fantasma para ficar correndo atrás de espírito?

Luciana era zen, maluca, filhinha de papai, hippie e bebia para caralho.

De manhã, acordava as seis, fazia yoga, mantinha um jejum maluco que só podia comer arroz integral e mais nada.
Depois ficava meditando.
Ouvindo Kitaro.

Saca Kitaro?

De noite, ela matava a larica com Big Mac e sorvete de flocos.

Juro.

Ela era mais velha do que eu, então essas maluquices tinham até um charme para mim.

Eu era novo, curtia.

O problema foi quando ela cismou em entrar para a macumba.

Puta que pariu...

No primeiro dia que ela foi para macumba, já voltou com filiação:
- “Descobri que sou filha de “Fulano” com “Beltrana”.

Nem vou falar os nomes das entidades.

- “E você com certeza é filho de “Sicrano”

- Luciana...

- “Da próxima vez você vem comigo. Vai ter saída de santo.”

- Luciana...

- “Tem bebida!

Eu não dou nem gole do meu copo pro santo.
Quanto mais beber junto com ele!

- “Tem comida pra caramba”

Não quero gente jogando pipoca em cima de mim!

- “Tem música!”

Toca Raul?

Aspas:

Se com esses argumentos, ela não me convenceu a ir,
imagina minha ex namorada evangélica tentando me converter?

- Luciana! Puta que pariu! Eu não vou na macumba!
-“Você é muito bobo! Fique sabendo que é muito bonito!
- Legal.
- “E é cultura afro!”

Apelou.

- Luciana, vou te explicar uma coisa:
- Tem Pombagira, não tem?
- “Tem, mas..."

- Eu tenho medo de Pombagira, pronto!

- “Não dá pra conversar com você mesmo!”.

E ela foi todas às vezes sozinha.

Sozinha, não! Ia sempre com duas amigas que eram raspadas no santo.

Se ela ficasse na dela, curtindo a religião dela igual uma porrada de gente que eu conheço, beleza!  Por mim.

Mas o fato é ela entrou numa...

Toda vez que ela bebia, baixava um espírito.

Aí é foda, né?

Discutir com mulher já é um saco.
Discutir com a mulher e o espírito da mulher então...

Começamos a brigar direto.

Qualquer relação que os dois ficam sempre brigando, já acabou!

Quando ela percebeu que estava vacilando muito, parou com isso.

Até a porra desse dia do jogo de WAR.

A casa era de um amigo meu e a mulher do cara ficou tocando nesses assuntos a noite toda.

Instigando.

A bebida do evento era caipirinha e a comida era...Nada!

Éramos seis.

Cinco pessoas tentando pegar a porra da mulher virada no samurai.

- Luciana, aqui não é o lugar...
- “Meu nome não é esse...”
- Tá, tudo bem! Qual é o seu nome então?

Tinha que começar  uma conversa, né?

- “É Mariazinha...não sei das quantas.”

Não lembro o nome direito.

- “Meu Cavalo gosta muito de Xunxê!”

E riu, de novo, de uma forma muito sinistra.

Pelo jeito dela falar, a mulher do meu amigo chegou ao consenso que estávamos falando com uma criança.

Tá!

Aí! Meu amigo, o dono da casa, me manda essa:
- “Angelo, se ela quebrar alguma peça daquela cristaleira minha mãe vai virar o Capeta”

Interessante colocação.

O que a porra da mulher fez?

Foi pular o sofá, esbarrou na prateleira e sem querer quebrou duas taças de cristal da mãe do cara.

Dava para ver de longe que as taças eram caras.

Após fazer a merda, ela arregalou os olhos assim e olhou pra mim...

Eu conhecia aquele olhar.

Já estava muito puto por conta do jogo.
Aquilo foi o ponto final.

- Mariazinha, agora você se fudeu!

Voei em cima dela, botei no meu colo e dei muita palmada na bunda.

Até a porra do porre subir.

Quando ela viu que não tinha mais jeito.

Desmaiou.

O outro casal estava apavorado.
Espremidos na cortina igual risole de rodoviária, saca?

- “E agora?”
- Pede um táxi pra mim por favor.

Carreguei a louca até o carro e joguei no banco igual um cadáver.

O taxista nem falou nada.

Ela só foi acordar no meio do caminho, com a cara mais sonsa do planeta.

- “O que houve?”
- Não houve nada, você desmaiou!
- “Assim, do nada?”
- Bebendo de estômago vazio, né Luciana? Dá nisso?
- “Gente...E o jogo?”
- Paramos de jogar.
- “Puxa foi mal.”
- Tudo bem.
- Sabe qual era o meu objetivo?
- Hum?
- Destruir o exército preto.

Terminei o namoro.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Minha namorada evangélica



Antes que vocês comecem a rir...
Sim, eu tive uma namorada evangélica e o nome dela era Angélica.

E nós éramos o casal: Angelo e Angélica.

Agora posso começar?

A questão é:
Onde eu arrumei uma namorada evangélica?

Ela era minha chefe e mais velha que eu uns sete anos.
Era simpática, inteligente, gente boa, um amor de criatura e muito bem humorada.

Humor pra mim é fundamental.

Voltávamos sempre para casa juntos e o flerte se desenrolou entre o balanço das barcas e os engarrafamentos da ponte Rio-Niterói.

Começamos a namorar.

Ela dizia que se apaixonou por conta do meu charme.
Então quem sou eu para dizer o contrário, né?
Mas eu sempre achei que ela gostava mesmo era do perigo.

Não sou religioso, mas também não tenho nada contra nenhuma religião.
Mentira! Tenho sim, mas não vem ao caso.

Os evangélicos...
Hum, como posso dizer isso sem soar preconceituoso...
Vou tentar.
Os evangélicos, em sua grande maioria, costumam ser um pouco mais insistentes quando se trata em tentar convencer outras pessoas a conhecerem a religião deles.

Ficou bom assim?

Angélica não era dessas que levanta na barca e começa a pregar.

Mas insistia em tentar me levar para igreja.

É que evangélico não pode namorar com pessoas do mundo.

E eu era do mundo, né?

Eu ainda não sei ao certo de que mundo eu era, mas era de algum mundo que não era o deles.

Então tínhamos esse problema:
Ela tentava me arrastar para igreja e eu tentava levá-la para o bar.

Quem vocês acham que venceu?

Seis meses depois e ela já estava tomando vinho.

Eu sei! Sou o demônio!

Mas aí um dia...

-“Vai ter uma festança de aniversário para uma amiga minha, vamos?”

Eu ainda não tinha conhecido nenhum amigo dela.
Então pensei: “Ih! Vai me assumir, gostei de ver...”

- Vambora!

A casa era longe para caraio, e só após duas horas de buzão, chegamos. 
A festa já estava bombando e eu estava com uma sede da porra!

Só que meus ouvidos não ouviam aquele barulhinho que me deixa feliz:

Aquele assim: Plack... Tshhhh!

Da latinha de cerveja abrindo.

Dou aquela visualizada no local e não vejo ninguém com líquido dourado no copo.

Hummmmm...

- Angélica! Você que é de casa, pega uma cerveja pra mim, por favor!
- “Ih! Coração! Acho que não tem cerveja.”

Porra...

- Então pega um vinho mesmo.
- “Sabe o que é...”

Pelo tom de voz dela, tudo foi ficando escuro ...

- “Não tem bebida.”

Hadouken no peito.

- Angélica, você me trouxe para uma festa de evangélicos?
- “É, mas...”
- Puta que pariu! Que merda! Não acredito ...

Festa de evangélico é assim:
Muita comida e nenhuma álcool.
Evangélico come para caralho!

- “Mas tem refrigerante, coração!”

Se dos meus olhos saíssem chamas...

Calma Angelo, respira, mentaliza o azul, o azul...

-Angélica, pelo menos eu posso descer e comprar cerveja só pra mim?

-“Então esse é o famoso Angelo Morse!”

Olho para trás e vejo um senhor  grande e de terno cinza.

- Olá, muito prazer!
-“Coração, esse é o pai da minha amiga, o Pastor Sérgio!”

Pastor Sérgio já veio me abraçando...

-“E o nosso amigo aqui é de qual igreja?”

Fudeu.

- Não sou de nenhuma igreja, não senhor!
- “Ah! Mas é porque ainda não conheceu a palavra...”

E já foi me carregando pra longe da Angélica.

- “Meu filho, você conhece Jesus?”

Jesus taí? Se estivesse na festa pelo menos eu sei que teria vinho.
Uma pessoa que transforma seis tonéis de água em vinho, gosta de vinho.
E a história da bíblia diz Jesus fez isso porque o vinho da festa tinha acabado.
Imagina como é que acabou essa festa depois desse vinho todo?
Enfim...

- Bom, Seu Sérgio, eu conheço a história de Jesus...
- “Mas você já aceitou Jesus sobre todas as coisas?”
- Sim...quer dizer...Não...Quer dizer...Como assim?

-“Gente, esse é o amigo da Angélica e ele quer conhecer a palavra.”

No meio da festa.

E se eu falar que todas as pessoas que estavam ali eram evangélicas?

Angélica tinha me levado para uma armadilha.

O que deu nela?

E como se fosse um musical de Hollywood, uma gordinha pegou na minha mão e começou a cantar alguma coisa gospel.

E todo mundo cantava também.

E a gordinha de olhos fechados apertava minha mão com força!

Eu uso anel, machuca!

E uma baixinha segurou minha outra mão.

E a gordinha berrava no meu ouvido:
“Toda a terra celebra a ti, num cântico do júbilo, pois tu és, o Deus criador...”

E aí?

Cadê Angélica, essa filha da puta?
O que será que ela achou? 
Que eu ia me revelar ali? Aceitar Jesus no meu coração e pronto!

Fiquei puto.

Mas antes, precisava usar meus poderes de Matrix para sair dali.

Nem foi difícil.
A galera estava numa ligação tão forte, todo mundo cantando de olhos fechados.
Com minha habilidade Jedi, peguei a mão da gordinha maluca, juntei com a da baixinha e saí da roda de fininho.

Pastor Sérgio foi o único que me viu saindo.

Olhei para ele e fiz que não com a cabeça.

Fui embora.

Na porta Angélica aparece:

- “Angelo...”
- Angélica...

Terminei, óbvio!

E Angélica, boazinha que só ela, voltou para a igreja, casou com o filho do pastor e hoje está muito bem.

Aleluia!


Depois eu conto sobre a minha namorada macumbeira.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Pegou fogo no meu ônibus.


Assim como a maioria da população pós carnaval, estou mais pobre.

Fiquei tão duro que até minha conta do facebook está no vermelho.

Eu moro na Zona Sul, que é ao lado do Centro da cidade.

E eu precisava ir ao Centro.

No meu mundo ideal, no qual só eu tenho carro e olhos verdes, dá pra fazer esse percurso em quatro minutos.

No mundo legal, no qual outras pessoas também têm carros, daria pra fazer em 15 minutos.

Mas no mundo infernal, no qual o trânsito é insuportavelmente irritante, eu faço o mesmo caminho em 55 minutos.
Mais 15 minutos para achar uma vaga.

Ao contrário do que dizem, achar uma vaga no centro da cidade é muito simples:

Você só precisa achar alguém que esteja sinalizando que vai dar ré para fazer a balisa.
Aí você rapidamente pára atrás dele, sai do seu carro com um machado, golpeia a cabeça do motorista umas três ou quatro vezes, arrasta o corpo para fora do carro, joga atrás de uma banca de jornal, empurra o carro dele para frente, volta para o seu veículo e entra na vaga que era dele.

Ufa! Que sorte! Uma vaga!

Tudo isso, claro, sem deixar o guardinha de trânsito te multar.

Depois é só pagar 3 ou 30 ou R$ 3.000 para o flanelinha não riscar o seu carro todo e está tudo bem.

Deu uma preguiça.

Vou de ônibus.

Quando você se acostuma com carro, seja ele zero, semi usado ou mesmo caindo aos pedaços, nunca mais quer saber de andar de ônibus.

Ônibus é lento, ônibus é cheio, ônibus é quente, ônibus pega fogo, ônibus não tem!

Mas, fingindo que moro num país do primeiro mundo, vou pegar o transporte coletivo porque sei que é o mais correto a se fazer pelo bem do tráfego, da sociedade e do planeta Terra.

Este ano pretendo ser uma pessoa melhor.

E também precisava economizar.

Quando não existe uma fila indiana no ponto, fica um aglomerado de pessoas esperando o ônibus chegar.
Quando ele está vindo, você tem que dar uma de Chico Xavier e advinhar exatamente onde a porta de entrada vai parar.

"Oba! Vou sentado."

Parado no sinal eu percebo como esse lance de jogar limão evoluiu, né?

Na verdade fuderam com a porra dos moleques que faziam malabarismo com limão em troca de alguns trocados.

Como o desemprego só aumenta, o espaço do semáforo foi invadido pela galera do circo também.

Mermão!
Nesse sinal, tinha dois caras. Um em cima do outro, que por sua vez, estavam em cima de algo como um carretel gigante feito de madeira.
O de cima fazia malabarismo com três cones de trânsito, enquanto o de baixo cuspia fogo.

Porra!

E a cara dos moleques com os três limões na mão:

"Muito trabalho pra ganhar um real, melhor roubar!"

De repente sobem duas pessoas pela porta da frente:
Um cego e uma mulher muda.

A muda eu só fui descobri que era muda depois, claro.

-“Boa tarde! Eu podia estar roubando, eu podia estar matando...”

Grande coisa, qualquer um ali podia.

-“...Mas estou aqui pedindo sua colaboração.”

Isso pra mim soa como ameaça, mas tudo bem.

A receita é antiga:
Enquanto ele fica na frente mandando o vernáculo, a outra dá uma de Cheetara e em fração de segundos distribui uns papeizinhos com a breve história triste do cara e tal...

Independente de qualquer coisa dá pra ver que o cara passa dificuldades, então uns ajudam, outros não.

Neste dia eu era o “outros não.”

Saí de casa só para dar um pulo no Centro e voltar.
Não tinha dinheiro mesmo, pô!

-Não obrigado, hoje não dá!

Já me recusando a pegar o papelzinho.

Mermão, a moça muda me olhou com uma cara feia...

- “Mrfmmmm....”

Insistiu.

-Não quero, não, obrigado querida!

Eu não queria pegar a porra do papel. Que saco!

A muda gritou comigo.

- “MRFMMMM...”

Já foi meio constrangedor.

Olhei para o lado assim, sem graça, e vi que tinha um moleque me olhando.

Por que essas coisas acontecem comigo?

Eu sei, podia ter pego a porra do papel e acabado com a cena.

Mas...

- Já disse que não quero!

Falei um pouco mais alto.

Não é não em inglês, em francês, em alemão, em mandarim, em hebraico, em Libras e até em braille.

Sabe o que ela fez?

Botou a porra do papelzinho na minha perna e saiu.

Filha da....

Olhei para o moleque de novo.

Ele levantou a sobrancelha assim tipo Macaulay Culkin, sabe?

Aé?

Dei um peteleco no papel para o chão e me encostei no banco.

Na volta, ela vem recolhendo os papéis e a grana com os passageiros.

Quando chegou ao meu lado, a muda se abaixou devagar, pegou o papel do chão, olhou na minha cara, apertou os olhos e abriu a boca.

Mermão, chegou a escurecer...

Até fechei a mão preparando um Hadouken.

Palavrão é palavrão em inglês, em francês, em alemão, em mandarim, em hebraico, em Libras e até em braille.

-“MMMMMMRSMMMRSMMMRSMRSMMSMSMRSM”

Claro que ela estava me xingando.

Não satisfeito, comecei a bater boca com a muda.

-Eu avisei que não queria! Você não pode me obrigar! Você me respeita...

-“MMMMMMR! MMMRSMM! MRSMRSMMSMSMRSM”

Enfim...

Puta merda...

Aí o cego, que não é surdo nem nada, mandou essa:

-“Deixa Gorete, quem não quer ajudar não precisa. Deve estar precisando mais do que a gente. Mas lembre-se que ninguém sabe o dia de amanhã.”

Me jogou uma praga, o filho da puta!

Gorete ainda mandou um:

-“Hnam!”

Voltou para perto do homem igual um cão guia e desceram do ônibus.

Eu fiquei até tremendo, sabe?

Poxa...Olhei para o lado e alguma pessoas compartilharam comigo.

Cinco minuto depois. Ônibus lotado.

Uma senhora de uns setenta anos pára ao meu lado.
Em pé.

- Ô senhora, pode se sentar!

Levantei para senhora sentar, igual mamãe me ensinou.

- "Quem disse que eu quero sentar? Tá me chamando de velha?”

Pára tudo!

Qual é a possibilidade?

- Não senhora! Estou apenas cedendo o meu lugar para senhora!

Até gaguejei.

- “Não precisa, não! A “velha” aqui agüenta ficar em pé! O problema de vocês é achar que velho não presta para nada e blá blá blá...."

Botei a mão na cara assim...

Inacreditável.

Dei sinal.

- Motorista posso descer aqui?

Ia andar metade do caminho a pé no sol, mas era melhor...

- "Vai lá que hoje está brabo para o seu lado."


Motorista até riu.

- É mole?!

Desci do ônibus e ainda vi a velha falando pra caramba.

Se eu tivesse gasolina e fósforo botava fogo no ônibus.